"A Medicina Nuclear é o fiel da balança"
Geral
05.03.2012
Diagnosticar doenças mentais a partir de imagens. O que para muitos pode soar como inimaginável, para o médico chileno Ismael Mena, professor titular da Universidade da Califórnia, o fato é real e, mais do que isso, já contabiliza mais de 30 mil exames realizados. É possível sim adquirir uma imagem de esquizofrenia, por exemplo. Mais do que isso: Ismael Mena explica que há muitos casos onde o paciente tem diagnósticos divergentes, um psiquiatra aponta para transtorno bipolar, outro para depressão, nesse cenário surge a Medicina Nuclear como o "fiel da balança". O que é novidade no Brasil, com Natal atuando como porta de entrada, onde o exame é feito pela Clínica Nuclear de Natal, Ismael Mena já realiza há 23 anos exames como esses nos Estados Unidos e no Chile.
A chamada "Cintilografia de perfusão cerebral", conhecida no mundo inteiro como "spect cerebral" é usado para fazer o diagnóstico de doenças como depressão, transtorno bipolar e autismo. O cientista Ismael Mena observa que o exame está sendo visto em diversos países como um grande aliado de psiquiatras e psicólogos. O estudo desenvolvido pelo professor da Universidade da Califórnia é realizado a partir de uma base de dados, dividido por faixa etária. "Isso (o exame para identificar doenças psíquicas) foi possível com o desenvolvimento em meu laboratório na Universidade da Califórnia para o software de padronização para o volume do cérebro para que possamos construir bases de dados normais e especialmente para comparar os resultados de nossos pacientes anormais com bancos de dados normais correspondentes ao mesmo grupo da idade", comenta o médico, que proferirá uma teleconferência para pediatras no dia 13 de março, às 19h, na Associação Médica do Rio Grande do Norte. O evento é promovido pela Clínica Nuclear de Natal.
O interesse do cientista para estudar as imagens funcionais do cérebro começou quando ele foi tratar de um mineiro que sofria de Manganismo, doença crônica gerada pela exposição ao manganês e que é muito semelhante ao Parkinson. Em seguida, Ismael Mena foi convidado para atuar na Universidade da Califórnia. Começava a aí um novo e determinante capítulo na vida do médico-cientista. E Ismael Mena já avisa, as pesquisas não foram encerradas: "Agora eu estou muito interessado em estudar muitos pacientes jovens que apresentam alterações de humor nas manifestações de violência que tornam suas vidas e as de sua família muito dolorosas e difíceis". O convidado de hoje do 3 por 4 é um cientista famoso mundialmente, um professor que, também nesta entrevista, dá uma verdadeira aula sobre Medicina Nuclear e como ela se torna aliado de outros ramos da própria Medicina.
O que lhe motivou a estudar as doenças mentais?
Em 1966 descobrimos na Universidade Católica do Chile, com o professor George Cotzias, da Universidade de Nova Iorque para o tratamento da doença de Parkinson a L-Dopa, que restaura os níveis de dopamina, um neurotransmissor que está em falta nesta doença. O primeiro paciente foi um mineiro, que sofria de Manganismo doença crônica, por exposição ao manganês nas minas no norte do Chile. O Manganismo é uma doença crônica muito semelhante à doença de Parkinson e difere apenas na medida em que não é progressiva uma vez que ocorre a cura após o afastamento do trabalho. Em razão destes estudos fui convidado para ensinar e pesquisar nos Estados Unidos. Nasceu assim meu interesse em imagenologia funcional do cérebro.
A partir de que dados o senhor desenvolveu o exame que identifica doenças mentais?
Inicialmente em Nova Iorque por dois anos e mais tarde na Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde eu era professor e diretor de Medicina Nuclear por 21 anos. Durante esses anos, eu estava sempre esperando o desenvolvimento de um radiofármaco que nos permitisse estudar as funções cerebrais com o equipamento que tínhamos. Como todo convidado a ensinar e pesquisar nos Estados Unidos, eu também tinha metas. A minha era da Medicina Nuclear em psiquiatria.
Qual o grau de confiabilidade do exame que o senhor faz onde a partir da Medicina Nuclear traz diagnóstico da doença mental?
O grau máximo de confiabilidade foi alcançada quando se comparam os resultados de nossas pacientes com indivíduos normais (usando a base de dados da mesma idade). Nós construímos bases de dados para crianças (único no mundo) de 3 a 5 anos e outro diferente de 6 a 18 anos. Outra de jovens de 18 a 40 anos e um para adultos com mais de 40 a 80 anos. Isso foi possível com o desenvolvimento em meu laboratório na Universidade da Califórnia para o software de padronização para o volume do cérebro para que possamos construir bases de dados normais e especialmente para comparar os resultados de nossos pacientes anormais com bancos de dados normais correspondentes ao mesmo grupo da idade. Isto é necessário porque o fluxo sanguíneo cerebral varia grandemente, dependendo da idade. Em mais de 20 anos de trabalho nós descrevemos alterações em circuitos funcionais em várias doenças cerebrais, como transtornos de humor, cognitivas, os efeitos de drogas e lesões cerebrais, entre outros.
Alguns psiquiatras mostram descrença com o exame realizado pelo senhor. O que o senhor diria para eles?
Se há psiquiatras que expressam dúvidas sobre os nossos resultados eu responderia que esta tecnologia está aqui para consolidar progressivamente a medida que ele faz na Europa, Chile e outros países e, certamente, também no Brasil.
O exame desenvolvido pelo seu grupo elimina o trabalho do psiquiatra ou do psicólogo?
Muito pelo contrário, nosso trabalho com neuroSPECT (o nome do exame realizado) auxilia psiquiatras e psicólogos para reforçar o seu trabalho para mais decisões de tratamento informadas no momento do diagnóstico adicional. Ele (o exame) também oferece a possibilidade de avaliação por imagem das respostas terapêuticas em curto espaço de tempo e, assim, aumentar a eficácia dos seus tratamentos.
Quantos exames o senhor já realizou?
Eu fiz cerca de 30.000 testes em 23 anos de trabalho, iniciado na Universidade da Califórnia e continuo desde 1995 na Clínica Las Condes em Santiago, Chile.
Pode-se afirmar que existe uma imagem para a esquizofrenia, por exemplo?
Sim. Com toda certeza. Para a esquizofrenia e para o transtorno bipolar, entre outras imagens clássicas.
É possível haver diferença entre a hipótese do psiquiatra e o resultado do exame?
Sim e é freqüente. Aliás algumas vezes o paciente tem dois diagnósticos, para determinado medico a doença é uma esquizofrenia,para outro trata-se de um bipolar. A Medicina Nuclear é o fiel da balança.
Mas há psiquiatras que tem o ponto de vista que não é possível agora e nunca a ciência ter uma imagem de uma "doença da alma".
Na década de 90 quando deixei a UCLA (Universidade da Califórnia) me deparei com esse ponto de vista aqui no Chile, e respondi com um fato histórico, como exemplo. Relembrei o lançamento do primeiro satélite SPUTINIK, e uma entrevista de um cientista português que desmentiu o fato, alegando ser eternamente impossível um equipamento sair ou entrar na atmosfera, sem incendiar-se como ocorre com os meteoros. E o que aconteceu?
No Brasil, o exame desenvolvido pelo senhor entrou por Natal. Como explicar esse pioneirismo da capital potiguar?
A razão que entrou o NeuroSPECT por Natal deve-se exclusivamente ao interesse desta tecnologia pelo doutor Jales (Roberto Jales, diretor da Clínica Nuclear de Natal), que durante dois anos fez todos os módulos necessários a aprendizagem.
Fora a psiquiatria, na sua opinião que outro setor da medicina será beneficiado pela Medicina Nuclear?
Vem aí a Cintilografia mamária para pesquisa de neoplasia na população feminina em paralelo a mamografia, a ultrassonografia e a ressonância magnética. A famosa Clínica de Mayo nos Estados Unidos já realiza esses exames preventivamente.
Quanto custa uma Cintilografia Cerebral no Chile?
Aqui em torno de 700 dólares. Nos Estados Unidos isso chega a 3500 dólares. No Brasil penso que deve custar uns 500 dólares.
Há alguma diferença entre um exame feito em Natal e os feitos pelo seu serviço na Clínica Las Condes?
Os exames são absolutamente iguais. Após a entrevista com o psicólogo aplica-se o mesmo protocolo.
O senhor publicou vários artigos científicos em revistas internacionais sobre os malefícios das drogas. A que conclusão o senhor chegou?
Alguns aspectos: primeiro a comprovação dos danos ao cérebro, depois as características de cada droga especifica e por último a força que as imagens tinham sobre o usuário no sentido de afastar-se das drogas.
Qual a sua meta de trabalho agora?
Agora eu estou muito interessado em estudar muitos pacientes jovens que apresentam alterações de humor nas manifestações de violência que tornam suas vidas e as de sua família acima de tudo tornar-se muito doloroso e difícil.
reprodução: Tribuna do Norte