REMÉDIOS PROIBIDOS SÃO VENDIDOS EM MOSSORÓ
Geral
08.09.2010
JORNAL DE FATO | MULHER
Populares e bastante utilizados por mães para tratar gripes e resfriados infantis, diversos medicamentos tiveram a fabricação, manipulação, distribuição e armazenamento proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), através da resolução 96.
Ao todo, são 21 medicamentos com o princípio ativo denominado fenilpropanolamina.
A medida foi tomada depois que ficou constatado que a substância provocou hemorragia cerebral em usuários americanos. No Brasil, a suspensão é preventiva, mas já está valendo desde o ano 2000, quando foi publicada a resolução.
O problema é que os medicamentos ainda estão sendo vendidos nas farmácias da cidade e – pior – médicos continuam prescrevendo remédios para os pacientes, principalmente crianças.
"Esses remédios são muito procurados, principalmente o Naldex, Descon e Sanagripe", informou uma atendente de farmácia, pedindo para não ser identificada.
A dona-de-casa Flávia Andrade, 32, tomou um susto quando soube que o medicamento que dava para a pequena Juliana de um ano e meio de idade está na "lista negra" da Anvisa.
"A gente fica sem saber o que fazer porque foi a médica que passou", queixou-se a dona-de-casa, questionando também a venda dos medicamentos nas farmácias.
De acordo com o pediatra Ibernon Luiz, esses medicamentos, além de caros, são inócuos e tóxicos. Para o médico, quem faz uso de medicamentos com essa substância (fenilpropanolamina) pode ter hipertensão arterial súbita com risco de hemorragia cerebral. Na criança pode apresentar extremidades frias e cianose principalmente em altas doses por erro de administração.
"Imagine se tem cabimento usarmos um remédio para desentupir o nariz em gripes e resfriados que provocam contração (diminuição) de artérias em todo o corpo. É como se apertássemos uma mangueira d'água para o esguicho d'água ir mais longe", exemplificou Ibernon.
Ele recomendou a suspensão imediata dos medicamentos. "Se alguém estiver fazendo uso de algum desses medicamentos deve parar imediatamente, pois a droga é eliminada do corpo em seis horas", informou.
Ele também destacou que não há necessidade de nenhuma recomendação especial para o descarte do medicamento. Basta jogar no lixo ou derramar na pia, por exemplo.
CRM e Vigilância prometem agir
O vice-presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM-RN), Marcos Jácome, mostrou-se surpreso com a informação de que médicos de Mossoró estejam prescrevendo medicamentos proibidos pela Anvisa.
Ele comentou que nem sempre o órgão repassa suas resoluções para o conselho, o que dificulta o pronto cumprimento por parte dos médicos.
"Eu pessoalmente defendo que a Anvisa deveria enviar regularmente a lista com os medicamentos proibidos para que a gente pudesse divulgar aos profissionais, mas isso nem sempre acontece. Falta essa comunicação", comentou Marcos Jácome.
Ele informou que o CRM-RN enviará cópia da resolução 96 para todos os médicos registrados para evitar que os medicamentos continuem sendo prescritos. Além disso, o Conselho manterá discussões regulares com a categoria a respeito das resoluções da Anvisa, bem como suas aplicações no exercício profissional.
Já, a coordenadora do Departamento Municipal de Vigilância em Saúde, Allany Medeiros, informou que será intensificada a fiscalização sobre a venda de medicamentos proibidos nas farmácias de Mossoró.
Ela esclareceu que a indústria farmacêutica pode retirar o princípio ativo do medicamento, mas pode manter o nome oficial do produto.
"O que às vezes acontece é que a Anvisa proíbe a comercialização de um princípio ativo, e aí a indústria farmacêutica altera a composição, mas mantém o nome do medicamento. Nesse caso, precisa vir na embalagem o nome 'Nova Formulação', que não tem a fenilpropanolamina. Senão, essa informação está irregular", explicou Allany.
Ela informou que nos estabelecimentos visitados pelos técnicos não foi constatada irregularidade relacionada aos medicamentos da resolução 96. Mesmo assim, a fiscalização será intensificada e, se for constatada irregularidade, os medicamentos serão recolhidos e incinerados. Os estabelecimentos também poderão ser multados e, no caso de reincidência, até interditado.