SUS APOSTA NA REGIONALIZAÇÃO
Geral
09.09.2010
TRIBUNA DO NORTE | NATAL
A imagem comum de ambulâncias com logotipos de prefeituras entrando e saindo de hospitais públicos da capital poderá em breve ficar como uma lembrança ruim do passado.
Criar uma cultura nas comunidades de que é possível acreditar numa atenção básica de qualidade em suas próprias regiões – sem a necessidade de se deslocarem até a capital -, é uma das apostas do Sistema Único de Saúde para aliviar a pressão sobre as regiões metropolitanas.
Menos pacientes congestionando os hospitais da capital, mais qualidade no atendimento de milhares de pessoas no interior.
A “ambulanciatarepia”, como foi apelidado pejorativamente o expediente de muitos prefeitos de empurrarem a tarefa de diagnosticar, tratar e reabilitar pacientes é um dos temas em debate no seminário sobre a realidade do Rio Grande do Norte e as eleições de 2010.
Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão Universitária da UFRN em parceria com a TV Universitária e a TRIBUNA DO NORTE, o evento acontecerá no dias 14 e 15 e setembro, no auditório da Reitoria da UFRN.
Elisabethe Souza, coordenadora do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (NESC) e professora do Departamento de Saúde Coletiva da UFRN, acredita que só criando uma cultura na população de uma unidade básica de saúde eficiente em sua própria região poderá por fim à anacrônica fragilidade da atenção básica do estado.
“Isso abrirá significativamente a perspectiva de estruturar redes prioritárias”, acrescenta ela. Entre as prioritárias, estão a peri natal e infantil – para reduzir os índices de moralidade – e da prevenção e tratamento do diabetes, doença silenciosa e de grande presença no estado. “Isso, sem mencionar a necessária estruturação da rede urgência e emergência”, diz a especialista.
Há interesse do SUS avançar nessa proposta, mas Elisabethe Souza acredita que o êxito dessa proposta passa necessariamente por uma repactuação entre os entes federados. “A proposta da regionalização aposta na solidariedade e cooperação”, acentua ela. E acrescenta: “ O município de pequeno porte, sozinho, não dará conta da atenção, mas juntando força com os vizinhos isso é possível, pois ele contará com estratégias de consórcio público para criar unidades de apoio e diagnóstico na região que dêem suporte a vários municípios”.
Na chamada média complexidade, porém, o processo revela complicadores, já que há uma dependência muito forte da rede complementar por parte do SUS e vice versa. “É nessa questão que vários interesses se sobrepõem e na maioria deles, infelizmente, é o interesse privado que se sobrepõe ao público, lamenta Elisabethe Souza.
“É necessário haver um enfrentamento da gestão para ter uma rede própria dentro da perspectiva da regionalização”, acrescenta.
No RN, o estudo que ensejou esse novo desenho do SUS para o interior foi concluído há três anos pelo Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (NESC), da UFRN, vencedor do edital público para pilotar uma pesquisa sobre problemas específicos da saúde na região Nordeste (Bahia, Ceará e Sergipe).
“A grande preocupação do SUS nesse momento é com o processo de regionalização da saúde”, confirma Elisabethe. Para ela, “a intenção é mudar a mentalidade sobre formas de atuação da rede numa visão mais abrangente dos problemas ligadas à saúde pública”.
Segundo ela, além de investimentos em equipamentos, cada região precisaria empenhar-se na busca de trabalhadores qualificados, introduzindo mudanças em suas práticas de saúde.
Bate papo
» Elisabethe Souza – coordenadora do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva
Preocupação do SUS agora é com a regionalização
Qual a maior preocupação do SUS hoje no RN?
Há muitas preocupações. Mas eu diria que a grande preocupação do SUS, neste momento, é com o processo de regionalização da saúde no Brasil. No Rio Grande do Norte eram sete regiões de saúde até que um redesenho da rede produziu uma oitava. Foi esse desenho, por sinal, que baseou o processo de regionalização da saúde, proposta pela atual política de saúde, em parceria com o Ministério e a Secretaria de Saúde, Conselho de Secretários Municipais de Saúde e, em alguns momentos, a Organização Pan Americana de Saúde.
O que esse redesenho propõe exatamente?
A regionalização busca, em última análise, estruturar no RN as redes de atenção à saúde dentro das oito regiões junto com a Política Nacional de Humanização. Em resumo, é isso.
O que precisa ser mudado?
Existe hoje um desenho regional que precisa ser aprofundado para responder às necessidades de cada população. Para que haja essa produção são necessários investimentos e desenvolvimento de políticas sociais e uma estruturação de redes que coloquem o sistema regional de saúde em condições de responder aos problemas locais de saúde. A idéia é que se produza uma sinergia entre municípios da mesma região dentro de uma proposta de repactuação visando a estruturação da rede, evitando a dependência com a região metropolitana de Natal.
O que já existe de concreto dentro dessa proposta?
Em cada região já foi instalado um colegiado de gestão regional, composto pelos gestores dos municípios. Esse é o ambiente onde dará a pactuação para as políticas e iniciativas voltadas à região sanitária. A participação do estado nesses colegiado é fundamental. Além do investimentos em equipamentos, são desejáveis as mudanças em processos de trabalho. Afinal, a saúde precisa de trabalhadores qualificados e mudança nas práticas.
O que exatamente precisa ser mudado dentro do modelo atua?
O modelo que predomina hoje é muito centrado em resposta a queixas e não a produzir saúde no sentido de pensar ações de promoção de vigilância, de clínica diagnóstica e clínica terapêutica – incluindo-se aí a questão de assistência hospitalar ou assistência à reabilitação. Deve se questionar até que ponto só a instalação de um equipamento de saúde vai potencializar o atendimento à população. Para isso são necessárias estratégias articuladas com outro setores e políticas. Os municípios devem pensar conjuntamente as saídas para toda a região.