DIRETO DO CÉREBRO - Pesquisadores descobrem como age a anandamida, substância comparada ao princípio ativo da maconha
Geral
20.09.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Alfredo Durães
Publicado no dia 19/09/10
Em sânscrito, ananda significa algo como serenidade ou felicidade suprema. A palavra virou inspiração para que a comunidade científica batizasse como anandamida uma substância endógena (produzida pelo organismo; no caso, o cérebro humano) descoberta em 1992. Ela pode ter efeitos analgésicos, ansiolíticos e antidepressivos semelhantes aos do THC, componente da espécie vegetal Cannabis sativa, mais conhecida como maconha.
Entender melhor as funções dessa substância endógena, para que ela possa ser usada de forma medicinal, é o objetivo dos professores Fabrício Moreira e Daniele Cristina de Aguiar, que desenvolvem, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisas sobre a anandamida, o THC e outras propriedades da Cannabis sativa. Os estudos têm colaboração do Instituto Max Planck de Psiquiatria de Munique (Alemanha) e dos departamentos de Neurociências e de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, unidade de Ribeirão Preto.
"Não se trata de apologia à maconha",ressalta, pela segunda vez durante a entrevista, o professor de farmacologia Fabrício Moreira, 33 anos, acrescentando que a droga causa problemas sim. "Mas é sabido que ela tem potenciais medicinais. Nossa intenção é tirar proveito da parte positiva, usando uma substância análoga. No caso, a anandamida", explica. Em relação aos problemas causados pela maconha no organismo humano, o professor cita a perda de memória e de coordenação motora, entre outros.
No Laboratório de Neuropsicofarmacologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Fabrício e Daniele Aguiar testam em animais (camundongos) os efeitos da anandamida e do THC. Além disso, estudam outras substâncias da maconha, a exemplo do canabidiol, com o intuito de contornar os problemas advindos do uso do THC. "Em colaboração com a USP de Ribeirão Preto, já identificamos diversas propriedades farmacológicas do canabidiol", diz Moreira.
O professor acrescenta que o principal desafio – e, ao mesmo tempo, a abordagem mais promissora – talvez seja aumentar os níveis da anandamida no cérebro, de modo a potencializar os efeitos benéficos da substância e evitar a administração de THC. "Desde a década de 1980, o mundo científico começou a entender como a maconha interfere em locais específicos do cérebro, mas ainda não se sabe como evitar completamente seus efeitos danosos", explica.