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Preconceito e desconhecimento dificultam diagnóstico precoce de doenças ‘femininas’

Geral

08.03.2013

 

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a saúde é um tema que nenhuma mulher pode ignorar e com o passar do tempo, os cuidados com ela devem ser redobrados. O preconceito e a falta de informação a cerca das doenças que mais atingem às mulheres contribuem para o diagnóstico tardio e, por conseguinte, o aumento do índice de mortalidade entre as mulheres. Os seis tipos de neoplasias responsáveis pela maior taxa de mortalidade entre as mulheres são os câncer de mama, de colo de útero, de pulmão, de estômago, de fígado e de cólon.
 
O câncer de mama é o segundo tipo mais frequente de câncer no mundo, e o mais comum entre as mulheres. Somente em 2010, o Brasil registrou mais de 49 mil novos casos e 11,8 mil mortes pela doença de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), do Ministério da Saúde. A estimativa do INCA, é que no ano passado foram detectados 34,95 novos casos neoplasia maligna da mama feminina para cada 100 mil mulheres. Ele é seguido pelo câncer de colo de útero, o segundo que mais aparece na população feminina, e que constitui a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil. Por ano, faz 4,8 mil vítimas fatais e apresenta 18.430 novos casos, com uma estimativa de 20,76 casos para cada 100 mil mulheres. Os dois tipos de câncer, contudo, têm chances altíssimas de cura caso descobertos em estágios iniciais. Para a mama, a cura fica em torno de 90% se o tumor for diagnosticado precocemente. No caso do colo do útero, chega a 100%.
 
Apesar de ser a forma mais precisa para se detectar o câncer de mama precocemente, a mamografia ainda é privilégio de poucas mulheres. Uma das principais barreiras é a informação. Segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 65% das mulheres com menos de um ano de estudo têm acesso ao exame, enquanto essa proporção sobe para 94% entre aquelas com 15 anos de estudo ou mais. No Rio Grande do Norte, essa situação é ainda mais delicada. Há uma carência de mamógrafos. De acordo com a diretora do Centro de Saúde Reprodutiva Professor Leide Morais, Débora Torquato, só há duas unidades que oferecem o serviço pelo SUS em Natal, a Liga Norte-rio-grandense Contra o Câncer e o Centro de Saúde Reprodutiva, sendo este o único de responsabilidade do Governo do Estado. O município não dispõe de mamógrafo e terceiriza o serviço.
 
“As estatísticas mostram que o índice de novos casos de câncer, em especial de mama e de colo de útero, que já é altíssimo, vem crescendo a cada ano e diante dessa realidade não consigo entender o descaso dos governantes com essa problemática. O governo precisa se sensibilizar e deveríamos ter mais mamógrafos, pois a demanda é muito grande em todas as regiões. Somos referência no diagnóstico de doenças da mulher, inclusive do câncer de mama, mas há meses que não diagnosticamos uma paciente”, destacou Débora Torquato. Diariamente, era realizada uma média de 30 mamografias e 50 ultrassonografias.
 
 
 
O mamógrafo do Centro de Saúde Reprodutiva está há mais de cinco meses interditado pela Vigilância Sanitária, pois a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) adquiriu no ano passado, uma processadora analógica, que não é recomendada para o uso de mamografia, pois segundo a Vigilância, o uso dos químicos, como fixador e revelador, acarretam problemas para a saúde. Desde então, a diretora tem lutado para conseguir uma processadora digital, mas sem êxito. A expectativa é de que este ainda ano a unidade seja contemplada com uma nova processadora e volte a realizar exames de mamografia.
 
Débora Torquato explica que, por meio da realização anual da mamografia a partir dos 40 anos, o diagnóstico precoce também proporciona tratamentos menos agressivos. O resultado é o aumento da qualidade de vida da paciente, a redução da indicação de quimioterapia, e a preservação da estética das mamas em decorrência da menor necessidade de cirurgias radicais.
 
Além da realização de exames preventivos periódicos, é importante, segundo os médicos, estar atenta aos fatores de risco e de proteção. Atitudes simples como manter uma alimentação saudável e peso adequados, por exemplo, ajudam na prevenção do câncer de mama. O consumo de gordura animal faz com que sejam acumuladas substâncias tóxicas ao organismo que não são eliminadas. Elas agem no corpo como o estrogênio, favorecendo o câncer de mama.
 
A hereditariedade também é um fator que influencia no aparecimento do câncer de mama. Cerca de 10% dos casos da doença são ocasionados por uma mutação genética hereditária. Portanto, mulheres que já tiveram tias, primas, mãe ou outro parente próximo com o tumor, devem começar a fazer exames preventivos mais cedo.
 
O adiamento da primeira gravidez para depois dos 30 anos também é fator que traz maior risco de câncer de mama, já que o organismo fica sendo mais tempo bombardeado por estrogênio, um hormônio que favorece o câncer de mama. Quanto à pílula anticoncepcional, de acordo com o INCA, ainda não há comprovação de que seja um favorecedor do aparecimento desse tipo de tumor.  Já a ingestão de álcool, mesmo em quantidade moderada, também é contraindicada.
 
Câncer de colo de útero
 
No caso do colo de útero, o principal fator de risco é o HPV, ou papilomavírus, sexualmente transmissível. Quase a totalidade dos cânceres de colo de útero tem origem do HPV. Contudo, é importante ressaltar que apenas cerca de 2% das mulheres que foram infectadas por HPV costumam apresentar o tumor. A prevenção do HPV é feita por meio de uso de preservativo. Também há no mercado brasileiro vacinas para duas variedades do vírus. No entanto, elas ainda não estão disponíveis para o Rio Grande do Norte. Outros fatores que podem facilitar o aparecimento do câncer de colo de útero são o tabagismo e o uso prolongado de pílulas anticoncepcionais.
 
“As mulheres precisam ter a consciência de que o exame que detecta a doença tem que ser feito regularmente a partir do início da vida sexual da mulher. É necessário também que as mulheres tenham a consciência de que o câncer de colo de útero é considerado como uma doença sexualmente transmissível. Avançamos muito na derrubada do preconceito, mas precisamos ampliar o trabalho de informação, pois o desconhecimento ainda é grande, e com isso ampliarmos o campo de atendimento, haja vista que ainda é muito alto o índice de mulheres que nunca fizeram o exame preventivo”, destacou a ginecologista.
 
É possível detectar tanto o Câncer de Mama, como o Câncer de Colo de Útero de forma precoce através de exames ofertados nas Unidades Básica de Saúde nos municípios. Para isso, a realização dos exames de mamografia e o Papanicolau é fundamental.
 
Teoricamente, as etapas de rastreamento se iniciam nos municípios, através das equipes de Saúde da Família. A partir daí, as mulheres são encaminhadas para realizar mamografias. Casos alterados são encaminhados para exames mais específicos (punção, biópsia, ultrassonografia).
 
A ginecologista Estela Guerra explica que o Centro de Saúde Reprodutiva é uma unidade de assistência voltada para a mulher, desde a adolescência, passando pela idade reprodutiva até o climatério, com o oferecimento de vários exames clínicos. A ginecologista destaca que no Centro, é possível fazer desde o diagnóstico até o tratamento de pacientes em que forem detectados casos de câncer de mama. A médica disse que o câncer tem mais incidência em mulheres com múltiplos parceiros, com multiparidade (muitos filhos) e com início de vida sexual precoce.
 
Segundo o INCA, a cada ano 500 mil mulheres descobrem sofrer da doença no mundo. Sendo que a enfermidade é responsável pelo óbito de cerca de 230 mil delas por ano. De acordo com o Ministério da Saúde, pode haver redução de cerca de 80% da mortalidade por este câncer, entre mulheres na faixa etária de 25 a 65 anos, com exames regulares de preventivo, conhecido como o Papanicolau.
“O uso de preservativos na relação sexual é uma forma de prevenção da doença. Trata-se de uma doença perigosa, porque o vírus pode ficar latente durante muitos anos e aflorar quando a imunidade do organismo estiver em baixa. A descoberta tardia se dá principalmente nas mulheres que não fazem exames preventivos regulares”, explica a ginecologista Estela Guerra.
 
Semana da Mulher
 
O Centro de Saúde Reprodutiva Professor Leide Morais, no Alecrim, vai realizar uma semana de programação dedicada à saúde da mulher. A Semana da Mulher será aberta nesta sexta-feira (8), dia que se comemora o Dia Internacional da Mulher, com uma solenidade com os médicos da unidade e ações educativas de panfletagens. Durante a próxima semana, de segunda-feira (11) até a sexta-feira (15), o atendimento às mulheres, que normalmente acontece com agendamento, será demanda aberta. A expectativa é que sejam realizados uma média de dois mil atendimentos diários.
 
Além de consultas médicas, serão oferecidos serviços de nutrição, psicologia, teste rápido de HIV/AIDS, coposcopia, curetagem diagnóstica, biópsia de colo, conização, eletrocauterização, dentre outros atendimentos. A mamografia não será realizada em virtude da interdição do mamógrafo pela Vigilância Sanitária, nem os exames de ultrassonografia, pois o aparelho foi “emprestado” ao Hospital Walfredo Gurgel.
 
“Infelizmente teremos a consulta, mas não poderemos ter o seguimento que são os exames, que tem uma importância única no diagnóstico das doenças”, afirmou a diretora da unidade, Débora Torquato. Além disso, o PAFF (pulsão mamária) também não será realizado, por é um procedimento que precisa do ultrassom. “Este é mais um serviço que só é realizado aqui no Centro e estamos sem poder oferecer. Profissionais nós temos, só não temos os equipamentos”, conclui Débora Torquato.

Fonte: Jornal de Hoje