Pediatras ameaçam fechar Pronto Socorro Infantil do Walfredo Gurgel por falta de profissionais
Geral
26.03.2013
Quem precisar de atendimento pediátrico nos próximos dias encontrará as portas dos hospitais fechadas. A situação do atendimento pediátrico no Rio Grande do Norte que já é complicada tende a piorar nos próximos dias. Isto porque a falta de profissionais vai fazer com que as principais unidades hospitalares de atendimento infantil no Estado suspendam os serviços. O Pronto Socorro Infantil do Hospital Doutor José Pedro Bezerra, conhecido como Hospital Santa Catarina, já está com o atendimento suspenso desde o último dia 19. Situação que se repete há três meses e nenhuma providência foi tomada. No Hospital Regional Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim, o atendimento infantil está garantido até o dia 27. No Pronto Socorro Infantil Sandra Celeste os médicos só atendem até o dia 28.
No Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel a situação é ainda mais delicada, haja vista que a unidade recebe pacientes de todo o Estado. A escala médica só está garantida até esta terça-feira (26). A direção do Hospital refez a escala com apenas um médico por plantão, a fim de garantir o atendimento até o fim do mês, mas os médicos se recusam a aceitar a nova escala e caso não seja encontrada uma solução vão fechar, a partir da quarta-feira (27), a porta de entrada do Pronto Socorro Infantil do Hospital Walfredo Gurgel, atendendo apenas aos pacientes internados.
Os pediatras alegam que, com apenas um médico por plantão, é impossível atender a demanda. Hoje, são dois pediatras por plantão, mas houve tempo em que eram quatro. A direção quer que apenas um pediatra fique responsável pelo atendimento de urgência e emergência na porta de entrada do Pronto Socorro, bem como das crianças internadas no Centro de Tratamento de Queimados e na enfermaria, além do ambulatório. Os pediatras contam com o apoio do Sindicato dos Médicos (Sinmed/RN) e do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern), que recomenda, no mínimo, dois médicos por plantão.
Hoje pela manhã, uma cena atípica no setor de observação pediátrica do Hospital Walfredo Gurgel. Dos oitos leitos, apenas um estava ocupado. No entanto, dos dez leitos de enfermaria infantil, sete estavam ocupados e no Setor de Queimados havia quatro crianças internadas. Duas médicas estavam de plantão, mas isso já não é mais o normal. Dos 17 pediatras que o hospital tinha no início do ano, hoje só conta com 12, pois três se aposentaram, e dois estão de licença. Com isso, alguns profissionais estão tendo que ficar sós nos plantões e a direção têm encontrado dificuldade em completar as escalas. A pediatra Denise Costa, que trabalha no Walfredo há 25 anos e que estava de plantão hoje pela manhã, conta que nos últimos dias já cumpriu o plantão sozinha por, pelo menos, duas vezes.
É fato que a demanda pediátrica no Hospital não é alta, mas os pediatras explicam que os demais serviços sendo fechados, todos os pacientes procurarão o Walfredo Gurgel. Além disso, os pediatras explicam que o problema não é bem a quantidade de pacientes, mas sim, a complexidade de cada caso, que requer uma atenção diferenciada. “É uma situação complicada e todos os médicos estão bastante preocupados porque ficar num plantão sozinho não dá certo”, destacou Denise Costa.
A pediatra Zelita Santos Pessoa trabalha há 24 anos no Hospital Walfredo Gurgel e relata as dificuldades vividas pelos profissionais que trabalham na unidade nos últimos anos. “Estamos à mercê da própria sorte. Há três anos que os pediatras vêm se aposentando e ninguém faz nada. Hoje, o pediatra mais novo tem 50 anos e somos obrigados a trabalhar dobrando plantão por cima de plantão. Só aumenta a carga horária e a responsabilidade, mas a remuneração é a mesma. Éramos 30 pediatras. Hoje somos 13 e ainda tem mais dois que nos próximos meses vão se aposentar. Com a sobrecarga, está todo mundo doente, estressado, pois estamos trabalhando todos os finais de semana por mês. Assim não tem quem agüente. Estamos esperando uma solução há muito tempo e já estamos fazendo plantões eventuais. Não há nenhum sinal de que essa situação possa mudar. A situação já está extrapolada e estão querendo extrapolar ainda mais. Solução existe, mas falta vontade política que esse governo não tem”, desabafou a pediatra.
Para a diretora médica do Hospital Walfredo Gurgel, Marleide Alves, o ideal para completar a escala médica dos pediatras no Pronto Socorro no hospital seria mais dois pediatras com carga horária de 40 horas e um de 20 horas. “Com esses três profissionais, conseguiríamos cumprir as escalas, as férias e as licenças-prêmio”. Segundo ela, como não há mais pediatras do último concurso público para serem convocados, a Secretaria Estadual de Saúde Pública está fazendo um levantamento dos pediatras que trabalham nos ambulatórios para poder fazer transferência para o Hospital Walfredo Gurgel e o Hospital Santa Catarina, e suprir a carência. Marleide Alves explica que dos 13 médicos que compõem a escala dos profissionais, cinco médicos com carga horária de 40 horas, dividem a sua carga horária, sendo 20 horas na porta de entrada de atendimento e 20 horas nas enfermarias de queimados, pediátrica e no ambulatório, para atendimento de filhos de funcionários.
A reportagem tentou entrar em contato com o secretário de Saúde, Luiz Roberto Fonseca, mas ele não atendeu as ligações. Segundo nota enviada pela Sesap, o retorno do secretário não foi possível, pois no horário de fechamento desta edição, o titular da Saúde estava reunido com a Coordenadoria de Operações de Hospitais e Unidades de Referência (Cohur) para decidir a organização das escalas dos pediatras. Um posicionamento, segundo a nota, só será possível no final da tarde desta segunda-feira (25).
Sociedade de Pediatria cobra solução
Na última sexta-feira (22), o ministro Alexandre Padilha visitou o Hospital Walfredo Gurgel. Na ocasião, a pediatra Kátia Correia Lima, vice-presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Norte (Sopern), acompanhada da pediatra do Hospital, Sônia Godeiro entregou a ele e a governadora Rosalba Ciarlini um relatório detalhando a situação caótica da pediatria do Rio Grande do Norte. Entre outras deficiências, o principal problema apontado pelas médicas é o déficit de profissionais para cumprir as escalas médicas.
“Não é nenhuma novidade para a governadora que também é pediatra. O Estado já foi avisado há mais de três meses e nada foi feito. Por isso, a escala se encontra deficiente. Nos últimos anos, houve um grande número de aposentadoria e, no momento, as escalas não fecham. A partir do dia 27 nenhum pronto socorro do Estado terá atendimento pediátrico para dar assistência à população infantil. É uma situação lastimável, pois a pediatria não está sendo priorizada e quem sofre é a população”, afirmou a pediatra.
A solução de imediato, segundo Kátia Correia, seria a contratação de novos profissionais, com a realização de um novo concurso público. “O Governo diz que não tem médicos, mas isso não é verdade. Temos profissionais, mas ninguém quer dar um plantão eventual com os valores pagos hoje, pois não compensa, já que aquele que ganha mais é em torno de R$ 400. Enquanto que pela cooperativa, o valor pago pelo plantão é de R$ 1 mil. Aliado a isso, a falta de condições de trabalho e sobrecarga de trabalho afastam os pediatras do serviço público”, destacou a vice-presidente da Sociedade de Pediatria do RN.
Fonte: Jornal de Hoje