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Governo do Estado recolhe pediatras e suspende atendimento na Maternidade de São José de Mipibu

Geral

23.04.2013

Tapa aqui, descobre ali. Em meio ao caos da assistência materno-infantil no Rio Grande do Norte, o Governo do Estado adotou uma postura, no mínimo, contraditória. Para resolver o problema da falta de pediatras nos Hospitais Monsenhor Walfredo Gurgel e Doutor José Pedro Bezerra, conhecido como Hospital Santa Catarina, que tem ocasionado a suspensão no atendimento pediátrico infantil nestas unidades nos últimos dias de cada mês, a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) decidiu remanejar os pediatras lotados no Hospital Maternidade da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (Apami), no município de São José de Mipibu, para os hospitais da capital. No entanto, a transferência dos pediatras ocasionou a suspensão de atendimento obstétrico na unidade que é responsável por atender gestantes de 20 municípios da região Agreste do Estado.

A decisão foi tomada pelo secretário Luiz Roberto Fonseca e publicada, através de uma portaria, no Diário Oficial do Estado da última quinta-feira (18). Desde a publicação, os médicos tinham 48 horas para se apresentarem à Sesap e não precisavam mais cumprir os plantões no hospital de São José de Mipibu. No entanto, por iniciativa dos próprios pediatras, até as 7h da manhã desta segunda-feira (22), o atendimento ainda estava sendo realizado. O último parto realizado foi na madrugada desta segunda-feira.

Uma adolescente de 14 anos, do município de Nova Cruz, passou por Goianinha e Santo Antônio antes de chegar à maternidade de São José de Mipibu, já que nas outras unidades não estavam realizando partos. Não há previsão, alerta a direção da Apami, a respeito do próximo parto a ser feito na Maternidade, uma vez que, sem pediatra, os partos não podem ser realizados. No início da manhã de hoje, cinco mulheres, em trabalho de parto, procuraram à Maternidade e foram encaminhadas para Natal.

O representante da direção da Apami, Bruno Ferreira, explicou que não houve nenhum comunicado oficial da Secretaria Estadual de Saúde a respeito da transferência dos pediatras para Natal. “Fomos pegos de surpresa, e ficamos sabendo através do Diário Oficial. Desde sexta que, oficialmente, não temos mais pediatras. Eles vierem por conta própria, por amor à profissão e pelo compromisso que tem com a saúde”, ressaltou. Dos 23 leitos de enfermaria obstétrica, oito estavam ocupados. “Temos estrutura suficiente para atender as gestantes da região. Tínhamos seis pediatras, oito obstetras e quatro anestesiologistas e realizávamos cerca de 100 partos por mês”, destacou.

Bruno Ferreira considera que a atitude do Governo do Estado foi equivocada em transferir os pediatras e suspender os partos da maternidade. “É uma atitude contraditória, pois enquanto Natal sofre com a falta de leitos, e as maternidades estão superlotadas, nós temos leitos e médicos para atenderem. Na nossa região, apenas nós que estávamos realizando parto, pois o Hospital de Santo Antônio está em reforma e o de Canguaretama também teve os médicos remanejados. A região Agreste está desassistida. Infelizmente, se não for tomada nenhuma providência, seremos obrigados a fechar a maternidade, já que somos um hospital especializado exclusivamente em realizar os partos de baixo risco”, destacou.

Janete Rodrigues, administradora da Apami, conta que o grande problema é em relação às oitos mulheres que estão, com os recém-nascidos, internadas. As obstetras podem dar a alta médica das gestantes, mas não terá pediatras para dar alta dos recém-nascidos. Quatro bebês estão em tratamento à base de fototerapia e três estão em tratamento com antibióticos. A administradora teme que os obstetras da Associação, bem como os anestesiologistas, sejam remanejados. A Maternidade conta com uma sala de parto e uma sala de centro cirúrgico.

“Somos porta aberta para todos os pacientes. Somos pactuados com alguns municípios, mas atendemos todos sem restrição. Até a divisa com a Paraíba somos a única maternidade que estava atendendo. Se até sexta-feira não tomarem uma providência, vamos fechar e isso significa além da desassistência à população, mais de 40 famílias desempregadas. Temo que retrocedamos 40 anos, quando os partos eram realizados em casa”, lamentou a administradora Janete Rodrigues.

Pediatras

Assim como a direção foi pega de surpresa, os pediatras também foram surpreendidos com a determinação da Secretaria Estadual de Saúde Pública. Das seis pediatras, quatro moram em João Pessoa, na Paraíba. A pediatra Nailza Viana, que também mora em João Pessoa, estava de plantão na manhã desta segunda-feira e quando chegou ao trabalho foi surpreendida com a informação de que teria que se apresentar na Sesap. “Não houve comunicação, nem entendimento. Acredito que era necessário um contato prévio para saber das nossas condições. Estamos cumprindo a nossa carga horária de 40 horas e precisávamos ser tratadas com respeito”, afirmou.

Nailza Viana disse que a postura do Governo do Estado vai em sentido contrário a política do Ministério da Saúde de incentivar os médicos a trabalharem no interior do Estado. “Já não existem muitos médicos que queiram trabalhar no interior e os que trabalham, o Governo retira para trabalharem na capital. Me sinto triste e decepcionada com a possibilidade de ver um serviço tão bom quanto este correr o risco de ser fechado”, lamentou a pediatra.

A pediatra Fátima Barbosa, também mora em João Pessoa, disse que antes da decisão, a Secretaria de Saúde deveria ter preparado a direção no sentido de não realizar mais partos com certa antecedência, de modo que os recém-nascidos não ficassem desassistidos. “Lamento a situação das mães que estão com os bebês em situação grave e que precisam de um acompanhamento permanente de um pediatra. Agora, os bebês ficaram aqui sem acompanhamento e não podem ser transferidos para Natal, pois não há vaga em nenhum lugar”, destacou.

Os seis pediatras que trabalhavam na Associação de Proteção à Maternidade e à Infância foram remanejados para trabalharem nos prontos socorros dos Hospitais Santa Catarina e Walfredo Gurgel. No entanto, há mais de 20 anos, estes profissionais são pediatras neonatologistas, perfil completamente diferente dos profissionais que trabalham na porta de entrada de um pronto socorro.

Mães revoltadas

A dona de casa Sandra Aureliano da Silva, de 38 anos, deu a luz ao filho na última quinta-feira (19). O bebê ainda não recebeu alta médica porque precisa de tratamento com fototerapia. Ela disse que não aceita ser transferida para Natal. “Não vou para Natal de jeito nenhum. Eu interrompo o tratamento do meu filho e voltamos para casa. Sei que é prejudicial, mas não temos condições de ir para casa. É uma vergonha uma governadora com uma postura que só prejudica a população”, desabafou.

O filho de Joseane da Silva Evangelista, que mora no município de Brejinho, nasceu no último dia 18 e também necessita de tratamento fototerápico. “Comecei a sentir dores e procurei o Hospital de Goianinha, mas não tinha médico. Fui para Monte Alegre e disseram que não tinha médico e me encaminharam para Parnamirim ou São José de Mipibu. Vim para cá, pois é mais perto. Também não concordo em ir para casa e não aceito ir pra Natal. Quero atendimento aqui”, afirmou.

A estudante Edileuza Gaudino da Silva teve o filho na última quarta-feira (17). O bebê nasceu com um desconforto respiratório, sem condições de se alimentar e necessita de tratamento com antibióticos e fototerapia. Ele passou quatro dias no soro e os pediatras buscaram uma vaga em Natal, mas não conseguiram. “Quero só ir para casa, cuidar do meu filho. Me sinto muito mal, às vezes choro porque não quero mais continuar assim”, afirmou.