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GRAVIDEZ PRECOCE É MAIS FREQUENTE EM MENINAS COM BAIXA ESCOLARIDADE

Geral

27.09.2010

O MOSSOROENSE | COTIDIANO

Por: Amanda Melo

Publicado no dia 27/09/10

Cabeça baixa e olhar inseguro. Sentada, com os ombros caídos, pernas cruzadas, braços passados transparecendo o extinto maternal de proteção. A jovem A.L.S. menina de apenas 15 anos, grávida de cinco meses não conseguiu esconder da família a novidade. O companheiro, que ainda é seu namorado, deu apoio. A família, mesmo insatisfeita com a situação, foi obrigada a aceitar a notícia. "Faço o pré-natal, todos os exames e vou para o médico. Só acho ruim porque vou ter que deixar a escola por um tempo para cuidar do meu filho, porque minha mãe trabalha e não pode me ajudar", conta a menor.

Olhando para a silhueta franzina da "criança" é difícil acreditar que ela estará gerando uma nova vida. Histórias como esta são mais comuns do que se imagina. Os números não mentem. Em Mossoró, os dados sobre gravidez na adolescência mais recentes coletados na única maternidade que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a Casa de Saúde Dix-sept Rosado, são do final de 2009. Hoje, Dia Mundial de Prevenção da Gravidez na Adolescência é importante reforçar o alerta sobre sexualidade e métodos de contracepção.  

No período de 1º de novembro de 2009 a 31 de dezembro do mesmo ano foram realizados 960 partos na maternidade. Desses, 144 foram de meninas na faixa etária dos 12 aos 18 anos, adolescentes com um futuro pela frente. O número de partos de adolescentes representa 15% do total nesse período. Entre os partos de meninas adolescentes, mais de 40% foram de jovens menores de 16 anos, período em que a gravidez é considerada de alto risco.

Nessa idade a mulher ainda não possui a maturidade ginecológica ideal para a reprodução. O útero não se desenvolveu totalmente, assim como a parte óssea da pelve. Nessa fase da vida, o útero possui uma força de contração muscular desenvolvida, o que explica o grande número de partos prematuros entre as adolescentes. Participar de programa de acompanhamento da gestação ajudam as meninas a se sentirem mais seguras na hora do parto.

A Casa de Saúde possui o Programa Parto Feliz que atende gestantes, adolescentes, ou não, que passam pela experiência de serem mães pela primeira vez. "O atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar formada por enfermeiras, psicólogo, fonoaudiólogo, assistentes sociais e pessoas da equipe de amamentação que fornecem informações através de palestras. Elas aprendem todos os cuidados que devem ter durante a gravidez e o que acontece na hora do parto", diz a assistente social Andréia Lira.

Atualmente, entre as 351 mães de “primeira viagem” que se cadastraram no projeto desde janeiro até agora, 53 são adolescentes. "O que nós percebemos é que muitas vezes elas estão amedrontadas, com medo da responsabilidade. Mas nesse estágio, quando estão próximas a darem à luz elas já se acostumaram com a ideia, pois o susto é maior na hora que descobrem que estão grávidas. Depois elas começam a tratar de forma diferente. Vem a emoção de ser mãe", explica Andréia. Um aspecto relevante apontado por Andréia, é que boa parte dessas meninas vem de famílias com nível de escolaridade muito baixo, geralmente vivendo na zona rural.

Dados nacionais fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que entre as mulheres com menos de 7 anos de estudo, o grupo etário de 15 a 19 anos concentra 20,3% das mães, enquanto entre as mulheres com 8 anos ou mais de estudo, a mesma faixa etária responde por 13,3% da fecundidade. Os dados influenciam também no futuro, sobre o número de filhos que essas meninas terão. Os números do IBGE revelam ainda que as mulheres com até 7 anos de estudo têm, em média, 3,19 filhos, quase o dobro do número de filhos (1,68) daquelas com 8 anos ou mais de estudo (ao menos o ensino fundamental completo).

No município existem pelo menos três programas desenvolvidos pela Gerência Municipal de Saúde com foco na questão da prevenção da gravidez precoce. "Nós temos o plano municipal de redução da mortalidade materna e infantil e dentro desse plano existe um viés para a prevenção da gravidez na adolescência. Além desse, existem outros dois projetos de prevenção à saúde sexual e reprodutiva nas escolas, tentando fazer discussões e articular estratégias junto com as equipes do Programa de Saúde na Família (PSF)", informa o coordenador do Programa Municipal de Saúde da Criança e do Adolescente, Jenifer do Vale e Silva.

Todos esses projetos têm caráter educativo, porém existe também o planejamento familiar realizado nas unidades de saúde através da distribuição de métodos contraceptivos. "A gravidez na adolescência extrapola a dimensão da saúde, pois está intimamente ligado ao nível de vida das pessoas e o nível de escolaridade. Tanto que em outras sociedades, mais desenvolvidas, os indicadores desse problema são bem menores. O enfrentamento desse problema passa por uma questão estrutural de melhora na qualidade de vida", reforça o coordenador.

As ações realizadas pontualmente são necessárias, porém precisam estar integradas dentro de um conjunto maior de programas ligados à saúde e educação. "De forma geral sabemos que essas ações por si só não vão resolver o problema como um todo. Enquanto não melhorar as condições de vida da população, não conseguiremos resolver esse problema definitivamente. O que podemos fazer são ações como essas", finaliza Jenifer do Vale.

Fonte: O MOSSOROENSE | COTIDIANO