Alta demanda faz paciente aguardar até três meses por atendimento no Centro de Reabilitação Infantil
Geral
03.05.2013
A greve dos médicos, que durou mais de dez meses, ainda traz reflexos ao atendimento no Centro de Referência Infantil do Rio Grande do Norte (CRI/RN). Com cerca de seis mil pacientes sendo acompanhados pela instituição e apenas dois neurologistas infantis para atendê-los há uma demanda reprimida de aproximadamente mil crianças à espera de atendimento. Diante da alta demanda, a direção do CRI/RN elaborou uma estratégia diferenciada de modo a garantir que todas as crianças conseguissem a marcação da consulta, diferente do que aconteceu no início do mês de abril, quando houve uma grande aglomeração de mães e pacientes do lado de fora da unidade e muitos voltaram para casa sem a garantia do atendimento. No mês de maio, serão agendadas consultas para os meses de maio, junho e julho. O próximo agendamento de consultas só acontecerá no primeiro dia útil de agosto.
A manhã desta quinta-feira (2), primeiro dia útil do mês de maio, dia de marcação de consulta, foi considerada tranqüila, apesar de antes das seis da manhã cerca de cem pessoas já aguardarem atendimento do lado de fora do prédio. Pelo esquema montado pela direção do CRI/RN, o paciente, logo na recepção, recebeu uma ficha numerada de atendimento. A espera foi feita em cadeiras, diferente do mês passado, quando os pacientes aguardavam do lado de fora. Os pacientes passavam pelo atendimento primeiro pela análise situacional do paciente. Em estando apto, o paciente era encaminhado para o SAME, setor de marcação de consulta. Caso contrário, passava por uma avaliação de caso que poderia resultar na marcação da consulta ou orientar o paciente a voltar para casa, pois precisava de outro tipo de atendimento. A logística possibilitou conforto ao paciente em meio à demora na marcação da consulta. As primeiras consultas só serão realizadas a partir da próxima terça-feira (7).
A coordenadora técnica do CRI/RN, Patrícia de Renor, explicou que, em virtude da demanda reprimida, a marcação de consulta será feita de forma trimestral. Ela conta que a quantidade de médicos neurologistas infantis é insuficiente para atender a demanda. São dois profissionais com carga horária de 20 horas, quando o necessário seria três médicos com carga horária de 40 horas. Cada médico é responsável por cerca de 180 atendimentos por mês. “Mas há falta de profissional especializado em atendimento neurológico infantil em todo o Estado. Se o Governo quisesse contratar, teria dificuldade de contratação”, afirmou. Nos dez meses em que o CRI ficou com o atendimento suspenso durante a greve dos médicos, houve um acúmulo de cerca de mil pacientes sem ser atendidos.
O esquema montado pela direção era apenas para marcação de consultas para pacientes que já são assistidos pela instituição. A triagem dos pacientes novos está sendo realizadas todas as sextas-feiras do mês de maio, para pacientes de zero a dois anos, todas as sextas de junho para pacientes de zero a quatro anos e em julho para pacientes de zero a seis anos.
A encarregada do setor de marcação de consultas, Mari Soares, explicou que o plano de guia de atendimento foi elaborado de modo a garantir o atendimento satisfatoriamente. Ela conta que uma equipe formada por quase 15 pessoas trabalharam para garantir o atendimento à população. “Mesmo diante dessa grande demanda, o nosso objetivo é atender o sujeito de modo singular. Vamos analisar para ver se precisamos fazer alguma modificação para o próximo dia de marcação de consulta. Iremos aperfeiçoar o nosso trabalho, pois o nosso intuito é sempre oferecer o melhor à população, mesmo diante das dificuldades e limitações”, afirmou Mari Soares.
Eurides Francisca da Silva é mãe de Paula Francinete, de oito anos. Uma criança autista, com constantes crises de convulsão. Eurides conta que durante a greve dos médicos, a filha teve quatro crises e sempre foi atendida no Hospital Santa Catarina. Durante esse período, a mãe procurou o CRI para modificar a medicação, que segundo ela, não estava fazendo mais efeito. Ela, que mora no conjunto Cidade das Rosas, em São Gonçalo do Amarante, foi até o Centro no mês passado, mas não conseguiu atendimento. Hoje, ela chegou por volta das 6h e pegou a ficha de número 144.
“Depois de quase um ano de greve, passamos horas aqui esperando para conseguir uma consulta para Deus sabe quando. Esse tempo todo, a minha filha ficou sem tratamento. Vim aqui e uma médica mudou a medicação da minha filha sem realizar nenhum exame. Mudou de 23 gotas para 80 gotas de gardenal. Só não matei a minha filha porque não dei a medicação. Isso é uma irresponsabilidade. Hoje, me sinto uma mãe desassistida, jogada ao lixo e as baratas”, desabafou a mãe.
Maria Ivaneide de Lima mora no município de Passagem e chegou pouco depois das 6h da manhã. Ela conseguiu pegar a ficha de número 172. A situação do filho de Maria Ivaneide é mais delicada. Wadson de Lima Alves tem Síndrome de Solto e nos últimos meses, a mãe relata que o filho está sangrando pela boca, nariz e ouvido. Ela conta que esteve no CRI em março e recebeu um encaminhamento interno de urgência, mas até agora não conseguiu atendimento para o filho. “O pessoal de Natal sempre vai conseguir marcar a consulta primeiro que quem mora no interior. Deveria ser feito uma forma de atender prioritariamente as pessoas com urgência e com casos mais graves”, avalia a mãe de Wadson.
A coordenadora Patrícia de Renor explica que não pode haver prioridade na escolha do atendimento, uma vez que a maioria dos pacientes que são atendidos na instituição é considerada de urgência. “Temos que respeitar o princípio da universalidade e da igualdade do SUS. Por isso, não podemos privilegiar ninguém por morar aqui ou ali, o que podemos fazer é analisar cada caso de forma diferenciada, de modo que aqueles casos mais graves, dentre os já graves, possam ser atendidos o quanto antes”, afirmou a coordenadora Patrícia de Renor.
Fonte: Jornal de Hoje