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QUANDO O MILAGRE VIRA MORTE - Cerca de 1.500 mulheres morrem todos os anos no parto ou em problemas decorrentes dele

Geral

04.10.2010

DIÁRIO DE NATAL |  BRASIL

Por: Vinícios Sassine

Publicado no dia 03/10/10

Jorge nasceu há dez dias, tem uma irmã de 9 anos e já está em casa. Já Bruno tem dois meses e meio de vida, um irmão adolescente e um quarto decorado, organizado cuidadosamente pela mãe. Amylee, por sua vez, nasceu miudinha, chegou a sofrer uma parada respiratória e precisou ficar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por 10 dias seguidos. A menina, filha única, se recuperou e, cinco meses após o nascimento, tem boa saúde, apesar da necessidade de acompanhamento médico. Os três bebês voltaram para casa pelas mãos da avó, do avô ou do pai. As mães morreram após o parto.

O que silenciosamente se passa nas maternidades brasileiras – em especial nas unidades que prestam atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – converteu-se numa tragédia contínua, que não arrefece ao longo dos anos. As gestantes correm riscos reais de morte, num país que não conseguiu reduzir os índices de mortalidade materna na última década. Oficialmente, cerca de 1,5 mil mulheres morrem todos os anos no Brasil por complicações na gestação, no parto ou em até 42 dias após o nascimento do filho. É a quantidade de mortes registrada pelo Ministério da Saúde em 2009, mesmo número de registros em 1996, 13 anos atrás.

A redução da mortalidade materna é um dos objetivos de desenvolvimento do milênio (ODMs) acertados entre o Brasil e a Organização das Nações Unidas (ONU), a exemplo do que fizeram outros 190 países. A meta estabelecida é diminuir em três quartos a chamada razão da mortalidade materna, que é a proporção entre óbitos e 100 mil nascidos vivos, até 2015. O governo calculou que em 1990 essa razão era de 140 mortes de mulheres para cada 100 mil nascidos vivos. Nos próximos cinco anos, essa razão deve chegar a 35. Estamos longe: em 2007, foram registradas 75 mortes.

O mais provável é que o Brasil não consiga cumprir o ODM da mortalidade materna. É o objetivo mais difícil de ser atingido entre os oito estabelecidos, e provavelmente a meta fique pelo caminho, como reconhecem setores do governo e da própria ONU.

A gravidade doproblema aparece em todos os dados oficiais da mortalidade materna no Brasil e, principalmente, na soma de tragédias particulares, enfrentadas por pais, avós e pequenos órfãos de mulheres que estiveram bem próximas de exercer a maternidade. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) considera como tolerável uma taxa de mortalidade materna de 20 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos. O índice no Brasil é quase quatro vezes maior. A redução que o governo brasileiro sustenta ter provocado nos casos de mortalidade materna é controversa. Até porque há dados contraditórios dentro do próprio Ministério da Saúde.

Fonte: DIÁRIO DE NATAL | BRASIL