PACIENTES SOFREM COM ESTIGMA DA LOUCURA
Geral
05.10.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Publicado no dia 05/10/10
Estudos realizados recentemente na Europa apontam que essa terapia também tem papel importantíssimo para atenuar a ação negativa do estigma da bipolaridade. A psicóloga acrescenta que os bipolares têm problemas associados ao equívoco de entendimento da sociedade em relação às doenças mentais. "São pacientes com autoestima abalada, com medo extremo de recaídas, porque sabem os danos emocionais e pessoais dessas recorrências, além de dificuldades interpessoais. A psicoeducação, assim como a terapia cognitivo-comportamental, ensina a reconhecer as pedras no caminho que podem provocar as crises", garante Girlene.
O arquiteto João Francisco*, 31 anos, teve a primeira crise depressiva quando mudou de cidade para cursar a faculdade de arquitetura. Longe de casa e diante de novos desafios, ele se sentiu acuado. A depressão não tardou, e veio tão intensa que o jovem não conseguia levantar da cama. A vida parou. Preocupado, João buscou tratamento e, quando conseguiu voltar às atividades sociais e profissionais, foi tomado pelas manifestações da euforia. "Mesmo tomando antidepressivos e antipsicóticos, uma energia incontrolável tomou conta de mim. Passei a confundir imaginação com realidade. Falava alto, achava tudo engraçado, imaginava ter poderes de super-heróis. As pessoas ao meu redor julgavam que eu estava ótimo, mas a situação estava fora de controle", relata.
Dez anos depois desse episódio, João considera vital estar atento para evitar as crises. E a psicoterapia é uma aliada de peso nesse processo. "Com ela, me conheço melhor. Descobri ainda que apostar no lado criativo me faz muito bem. Pinto, desenho, arrisco projetos de cenografia. São atividades que me dão prazer e também funcionam como terapia. Atualmente, trabalho, faço faculdade de artes plásticas, procuro viver um dia após o outro", diz.
O psiquiatra Sérgio Tamai lembra que o transtorno bipolar é uma doença crônica, com uma carga considerável de comorbidades. As abordagens medicamentosa e psicoterápica não bastam. "Também é fundamental que os bipolares tenham um estilo de vida saudável. O envolvimento com álcool e drogas é comum e deteriora ainda mais a saúde mental e física", alerta. A família e as associações de pacientes também são amparos necessários. "Pais e irmãos podem ajudar sem superproteger. Quem está próximo deve entender a doença, socorrer nos momentos difícieis, saber ler os sinais de crise", acrescenta João.
* Nome fictício a pedido do entrevistado
Saiba mais
Entre dois extremos
O que é ?
É um transtorno mental que alterna episódios de depressão com períodos de mania, que na psiquiatria significa um estado exaltado de humor, externado por comportamentos como euforia, hiperatividade, diminuição da necessidade de sono, exacerbação da sexualidade e incapacidade de autocontrole
Causas da doença
Ainda desconhecidas, mas com o envolvimento comprovado dos seguintes fatores:
l Bioquímicos – alterações em neurotransmissores
l Genéticos – mecanismos complexos de transmissão envolvendo múltiplos genes
l Ambientais – traumas ou incidentes que marquem a vida do indivíduo de forma negativa
Diagnóstico
A identificação da doença requer envolvimento de três dos seguintes sintomas, por pelo menos uma semana:
l Aumento excessivo da autoestima
l Redução da necessidade de sono
l Fala exagerada
l Aceleração da velocidade de pensamento e fuga das ideias
l Dificuldade de focar a atenção
l Aumento da agitação psicomotora até um grau extremo
l Envolvimento excessivo em atividades prazerosas com alto potencial de consequências danosas, como gastar demais e ter relações sexuais impulsivas
Tratamento tradicional
l No tratamento, costumam ser empregados medicamentos conhecidos como estabilizadores de humor, que servem para tratar tanto os episódios depressivos quanto os maníacos.
l O mais antigo e eficaz é o lítio. Mas outras substâncias, como o ácido valproico, a carbamazepina e a oxcarbazepina, também são receitadas
l Quando a vítima expõe a si mesma e aos outros a situações perigosas pode se fazer necessária a internação
O combate não farmacológico
Os remédios trazem de volta o equilíbrio químico do cérebro, mas para reorganizar a vida conturbada pelo transtorno é fundamental a psicoterapia.
l Psicoeducação – apoio informativo sobre a doença para os pacientes e seus familiares
l Terapia centrada na família – busca o entendimento do transtorno e a elaboração de estratégias para que pais, cônjuges, irmãos, filhos ou outras pessoas do convívio do paciente aprendam a lidar com a doença
l Terapia interpessoal – foca na resolução de conflitos pessoais, como perda afetiva e da autoestima
l Terapia cognitiva comportamental – trabalha a reestruturação de pensamentos muito positivos ou muito negativos