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Centro de Reabilitação Adulto não admite paciente há seis meses

Geral

10.10.2013

Pacientes que sofrem Acidente Vascular Cerebral (AVC), lesão medular, doenças neurológicas graves, como Alzheimer, precisam de acompanhamento neurológico, além de tratamento com profissionais de outras áreas como da psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia. No Rio Grande do Norte, quem precisa desse atendimento, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), só tem um caminho: o Centro de Reabilitação Infantil (CRI), para crianças, e o Centro de Reabilitação Adulto (CRA). A demanda de adultos à procura de atendimento é grande, uma vez que o CRA é referência estadual. Meses atrás era comum encontrar a recepção lotada de pacientes, e muitos deles ficavam numa fila de espera para atendimento no mês seguinte. Hoje, o cenário é outro. A recepção vazia é o sinal de que algo está errado. A falta de neurologista tem comprometido o funcionamento da unidade. Há seis meses, o Centro de Reabilitação Adulto não admite nenhum paciente pela falta do profissional e hoje funciona apenas com 10% da sua capacidade.

A diretora técnica do CRI/CRA, Patrícia de Renor, emocionada, lamentou a queda no número de atendimentos do CRA, em virtude da falta de neurologista. Ela explica que o paciente chega ao CRA com todos os exames, passa pelo serviço social que encaminha o caso para o neurologista e acompanha o paciente semanalmente. No entanto, há seis meses, o paciente para no serviço social, pois não há neurologista. “O problema é o acompanhamento, pois todas as patologias que são atendidas aqui são complexas, pois elas têm alguns agravantes e o neurologista tem que estar sempre presente para fazer esse acompanhamento médico”, afirmou.

No passado, os fisioterapeutas atendiam uma média de 40 a 45 pacientes por dia. Hoje esse número chega a, no máximo, cinco. “Estamos diminuindo o número de atendimento, pois vai acontecendo algumas intercorrências, vamos afastando os pacientes e eles só podem retornar se vierem de fora a comprovação, por um neurologista, de que ele pode dar continuidade a esse tratamento, o que leva tempo”, explicou Patrícia de Renor. Essa procura por um neurologista fica a cargo do paciente.

“Hoje estamos com 10% da nossa capacidade de atendimento. Nesses seis anos de existência, o CRA nunca esteve tão ocioso como hoje. Em setembro foi realizado 600 atendimentos, quando o normal era de aproximadamente três mil atendimentos. O CRA sempre teve uma boa rotatividade, com pacientes com um mês já tem uma recuperação boa, outros que em quatro meses já tem alta. São pacientes que precisam de atendimento imediato”, afirmou Patrícia de Renor.

A diretora técnica disse que já comunicou, meses atrás, a dificuldade para a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) solicitando um neurologista para a unidade, mas foi informada da impossibilidade de não haver especialista no Estado. Ela reencaminhou o pedido e está esperando resposta. “Isso nos incomoda bastante, pois esse é um centro de referência que funciona muito bem e não deixa nada a desejar a uma clínica particular. Temos profissionais excepcionais à espera apenas de um neurologista”, afirmou. Patrícia disse que um neurologista, para ir, pelo menos três vezes por semana a unidade, resolveria o problema do CRA.

No dia 24 de dezembro de 2012, a aposentada Ivanise Pedrosa, de 59 anos, teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ela conta que, assim que saiu do Hospital, procurou o CRA para tentar fazer fisioterapia, uma vez que ela não tinha condições de arcar com os custos do tratamento particular, e conseguiu a consulta de imediato. “Tudo muito bom. O atendimento ótimo. As coisas só funcionam graças à dedicação e comprometimento desses profissionais, que é um grupo altamente capacitado. Eles nos dão muito carinho, é tudo muito alto astral e isso melhora bastante a nossa autoestima e faz bem ao nosso tratamento. Mas hoje, estamos com medo de fechar, pois dependo exclusivamente disso”, revelou Ivanise Pedrosa.

Ivanise disse estar preocupada com os inúmeros pacientes que sofreram AVCs, assim como ela, que estão nas enfermarias dos hospitais e que precisarão dos serviços realizados pelo CRA. “Para onde vão essas pessoas se aqui não tem médicos para aceitar esses pacientes que precisam de tratamento urgente e estão em situação igual a minha que não pode pagar um particular? Eu venho para cá de ônibus e como não tem neurologista tenho que ir, de ônibus também, para o posto de saúde de Neopólis para atendimento com o médico. Às vezes só consigo consulta para o mês seguinte. Enquanto isso, aqui tem salas altamente equipadas esperando apenas um médico. Cadê os médicos do Estado? Onde estão que não aparecem um para cá? Eu sou adulto e já sei me virar, mas as crianças do CRI? E as pessoas que não sabem se virar nessa situação, como é que elas ficam?”, indagou a aposentada.

Quando iniciou o tratamento no CRA, Ivanise se locomovia por meio de cadeiras de roda. Hoje, ela já consegue andar, sem o auxílio de muletas e, em casa, ela conta que faz tudo, varre casa, lava louça e roupa. “Isso é muito gratificante. Não foi fruto apenas da minha vontade, mas também da competência desses profissionais que trabalham aqui. Cada dia que estamos aqui saímos com a certeza de que somos vitoriosos”, afirmou. Atualmente, ela faz acompanhamento com terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, nutricionista e fonoaudióloga.

“Abaixo de Deus, o nosso maior remédio é isso [CRA]. Eu sou uma vitoriosa, mas o troféu é desses profissionais que me acompanham, com carinho e atenção. Eu fico feliz da vida quando venho para cá e fiquei em depressão durante a greve, que teve que suspender o tratamento. E olhe que eu só venho duas vezes por semana, com meia hora por dia, e já estou nessa evolução toda, imagine se eu viesse mais vezes”, afirmou a aposentada Ivanise Pedrosa.

Josélia Amorim é filha da aposentada Ilda Gomes da Silva, de 86 anos. Ilda sofreu um AVC no dia 30 de janeiro deste ano, mas só conseguiu ser atendida pelo CRA em abril, pois já não havia neurologista. “Começamos em abril, e hoje minha mãe faz acompanhamento com psicólogo, fisioterapia, terapeuta ocupacional, fonoaudiologia. Minha mãe não falava e voltou a falar com o trabalho desenvolvido aqui. Além disso, ela já melhorou bastante na locomoção. Mas não temos um neurologista para fazer uma avaliação caso a pressão venha a subir. É comum ver as pessoas reclamando aqui porque houve redução número de atendimento, já que não tem neurologista, e o tratamento só pode ser iniciado mediante uma avaliação de um neurologista”, desabafou Josélia. Dona Ilda frequenta o CRA duas vezes por semana.

A filha de Ilda Gomes disse que pretende reunir um grupo de pacientes e acompanhantes e procurar o Ministério Público Estadual, através da Promotoria de Saúde, para denunciar a falta de profissional que compromete o serviço. “Ficamos numa situação difícil por falta de um neurologista. Ele é a peça principal para esse serviço funcionar e não podemos continuar numa situação dessa, pois cada dia pode agravar ainda mais a situação da paciente”, afirmou. Ela conta que já levou a mãe para a Unidade de Saúde de Lagoa Seca, para o Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol) e para o atendimento médico na Universidade Potiguar (UnP), mas não encontrou vaga para atendimento neurológico. “É inadmissível uma unidade como essa, com uma excelente estrutura, ótimo atendimento, ficar prejudicada por falta de um profissional”.

Lúcia Miriam, 50 anos, sofre de esclerose múltipla e faz acompanhamento médico no CRA há dois anos. “Sempre fui muito bem atendida aqui, mas de uns meses para cá estou me sentindo prejudicada por falta de neurologista”, disse. Na manhã de hoje, como em todas as quartas-feiras, Lúcia foi ao CRA para mais uma sessão de fisioterapia, mas foi impossibilitada de realizar os exercícios devido à pressão estar alta. “Minha pressão está bem alta e eu preciso de um médico para liberar os meus exercícios. Preciso de um médico para fazer o meu acompanhamento e não tem”, destacou. Além da fisioterapia, Lúcia também faz acompanhamento com psicólogo e terapeuta ocupacional. “Já estou me sentindo bem melhor, mas o problema é o médico, pois hoje sem médico não posso evoluir no meu tratamento”, afirmou.

O CRA hoje conta com dois fonoaudiólogos, dois psicólogos, oito fisioterapeutas, uma fisioterapeuta respiratória, uma enfermeira, duas terapeutas ocupacionais e duas assistentes sociais, divididos em dois turnos. O CRA funciona de 7h às 19h, com atendimento individualizado.

Atendimento no CRI

A diretora técnica do Centro de Reabilitação Infantil (CRI/RN), Patrícia de Renor, conta que a marcação de consultas no CRI está prejudicada devido à indefinição da situação dos médicos que trabalham na unidade, isto porque os médicos se recusam em cumprir a carga horária estabelecida e estão em negociação com a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap). Patrícia acredita que até o final do mês a situação deve ser resolvida e no início do mês a marcação de consulta deve ser retomada. Os médicos que tem carga horária semanal de 40 horas cumprem apenas 20 horas e os de carga horária de 20 horas, muitas vezes não cumprem nem 10 horas. A diretora disse que, depois da exigência do cumprimento da carga horária, alguns médicos já pediram aposentadoria e outros ameaçam pedir exoneração.

Normalmente, as consultas no CRI são marcadas para dois ou três meses. Hoje, como não há marcação de consulta prévia, o atendimento está funcionando com demanda aberta. Por exemplo, um médico atende os dez primeiros pacientes. “Essa é a melhor forma que encontramos de garantir a assistência à população. Não podemos marcar uma consulta para o mês seguinte sem saber se teremos médicos ou não. Assim, o paciente chega e se tiver médico é atendido”, explicou. Patrícia de Renor não acredita que há déficit de profissional na unidade. “O que há é que os médicos não cumprem a carga horária e com isso a escala não fecha, mas se todos cumprissem a carga horária não teríamos problema”, disse.

Reprodução: Jornal de Hoje