Servidores e população protestam contra possível fechamento do Pronto Socorro Sandra Celeste
Geral
15.10.2013
Procurar atendimento pediátrico em Natal pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não é uma tarefa fácil. A maioria das unidades básicas de saúde não dispõe de pediatras. No Hospital Infantil Maria Alice Fernandes, na zona Norte de Natal, referência infantil, o atendimento é referenciado. Nos hospitais de urgência, a falta de profissionais limita o atendimento a alguns dias do mês. A única unidade que consegue atender a demanda infantil, de Natal e municípios vizinhos, é o Pronto Socorro Infantil Sandra Celeste, que realiza uma média de 300 atendimentos pediátricos por dia e funciona, de porta aberta, 24 horas. Na manhã de hoje (14), médicos, demais profissionais de saúde da Unidade e a população realizaram um ato de protesto contra o possível fechamento e transferência do Pronto Socorro Infantil Sandra Celeste para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Cidade da Esperança.
A pediatra Sônia Godeiro, que representou o Sindicato dos Médicos (Sinmed/RN) no protesto, disse que ainda não há nada oficial. Segundo ela, o que há é uma informação extraoficial de que após a inauguração da UPA da Cidade da Esperança, prevista para 1º de novembro, o Pronto Socorro Sandra Celeste irá transferir todo o seu atendimento para UPA. “Como é de praxe, eles plantam a notícia para ver se vamos reagir ou não. O que sabemos é que a urgência será transferida para a UPA de Cidade da Esperança e o atendimento ambulatorial para alguma policlínica, mas isso ninguém quer. Estamos aqui para cobrar que eles não façam isso. Se realmente há o desejo de fechar essa unidade, estamos aqui para dizer para o prefeito e secretário que ninguém quer isso, pois todos os serviços estão fechados. O único que está aberto é o Sandra Celeste, que recebe pacientes até do interior”.
Além do não fechamento da unidade, Sônia Godeiro disse que o ato público também tem o objetivo de cobrar do Município o retorno do Pronto Socorro Sandra Celeste para o antigo prédio localizado no cruzamento das avenidas Bernardo Vieira com a Coronel Estevam. “A localização aqui é péssima e nesses quatro anos que transferiram a unidade para cá, com o dinheiro gasto com o aluguel, por volta de R$ 30 mil por mês, já tinha feito a reforma, pois lá o prédio é próprio”, disse a pediatra. “Há 25 anos que trabalho na pediatria no RN e vejo que estamos passando pela pior crise na pediatria, pois agora faltam leitos. Além da falta de serviços, hoje há uma grande dificuldade de internar uma criança, o que nos dá uma grande aflição”, destacou a pediatra.
Sônia Godeiro acredita que a UPA deveria ser aberta para somar ao atendimento do Sandra Celeste. Segundo ela, a grande procura pela unidade se justifica pelo fato dela ser a única a atender de porta aberta e ter a escala completa de médicos. Sônia conta que já foi até a UPA conhecer a estrutura física e afirma que a unidade é pequena e não tem espaço suficiente para receber a demanda do Sandra Celeste. “A UPA não comportaria atender todas as especialidades que já tem e ainda aumentar o atendimento infantil, com a demanda numerosa que já temos hoje”.
A professora Aldinéia Lino mora no bairro do Planalto e sempre que precisa de atendimento pediátrico para um dos filhos busca atendimento no Pronto Socorro Sandra Celeste. Hoje pela manhã ela levou o filho, Ariel Lino, de três anos, que estava com febre alta e vomitando desde a noite de ontem. “Geralmente o atendimento aqui é bom. O maior problema é a demora, pois parece que Natal inteira vem ser atendida aqui. Quando precisamos fazer algum exame específico temos que ser transferidos para outro local e como só há um carro social a demora é maior ainda”, destacou. A professora teme que a unidade seja fechada.
“Se isso acontecer vai ser muito ruim para a população, pois apesar do difícil acesso aqui ainda dá resolutividade. Se sair daqui o que vai acontecer é as crianças voltarem para casa sem atendimento ou serem atendidas de qualquer forma. Na verdade, precisamos de um hospital pediátrico, pois a demanda é muito grande e a oferta é mínima”, disse a professora Aldinéia Lino.
A diretora do Pronto Socorro, Telma Lúcia de Araújo Pereira, ainda não foi comunicada sobre qualquer informação a respeito do possível fechamento. “A informação que eu tinha é que a Secretaria nem fecharia o Sandra Celeste, nem o transformaria em ambulatório, mas que estava sendo feito um estudo da situação da pediatria em Natal. Espero que isso não passe de um boato, pois fechar o Sandra Celeste é uma imoralidade e um desrespeito tanto com a população que tanto precisa desse serviço, quanto com os servidores que são compromissados com a unidade. Precisamos de mais Sandras Celestes e não fechar serviços. Somos o único com porta aberta e apesar das dificuldades conseguimos dar resolutividade”, afirmou a diretora Telma Araújo.
Telma Araújo acredita que a unidade não seja fechada, pois a SMS publicou recentemente a contratação de técnicos de radiologia e inclui o Sandra Celeste no processo. A unidade está sem realizar o exame há mais de dois anos, apesar de ter um aparelho de alta tecnologia, por falta de profissional para operá-lo.
Para o mês de novembro, informa a diretora, a escala dos profissionais já foi concluída, com exceção da escala dos médicos que deve ser concluída esta semana. O Pronto Socorro conta atualmente com cerca de 200 profissionais. São nove pediatras do quadro do município e, mensalmente, são contratados uma média de 120 plantões através da Cooperativa dos Médicos (Coopmed). Além dos pediatras, a unidade conta com 12 enfermeiros (sendo dois com carga horária de 20 horas semanais e dez de 40 horas), 28 técnicos de enfermagem, bioquímicos, recepcionistas, farmacêuticos, assistentes sociais, técnicos de laboratório, auxiliar de farmácia e o pessoal da área administrativa. Por turno, a unidade dispõe de três pediatras.
Apesar do protesto, a Secretaria Municipal de Saúde negou qualquer intenção de fechar o Pronto Socorro Sandra Celeste. De acordo com a assessoria de imprensa da SMS, a intenção, na verdade, é ampliar o atendimento pediátrico tanto na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Pajuçara, quanto na UPA de Cidade da Esperança, que deverá ser aberta no início do mês de novembro, para desafogar o Pronto Socorro Infantil Sandra Celeste. Em longo prazo, a Secretaria reconhece a necessidade de transferência do local, segundo a assessoria, o que não significaria o fechamento do serviço.
Greve
A partir desta terça-feira (15), os servidores municipais da Saúde entram em greve por tempo indeterminado. A paralisação deve comprometer o atendimento no Pronto Socorro Infantil Sandra Celeste. Caso haja adesão maciça dos servidores, o atendimento ambulatorial será suspenso e o atendimento de urgência e emergência funcionará apenas com 30% ou 50% do efetivo. “Essa será a primeira paralisação na atual gestão. O prefeito pediu 200 dias, esperamos dez meses e até agora nada. Estamos lutando pela melhoria da saúde, mas também pela nossa remuneração. A greve é para que o prefeito Carlos Eduardo nos ouça”, afirmou Sônia Godeiro.
Fonte: Jornal de Hoje