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Liberdade pra fora da cabeça

Geral

30.10.2013

Um software e um diadema high tech poderão ajudar pacientes com sérias restrições de mobilidade e comunicação a terem um pouco de mais autonomia em suas vidas. Dois anos de experiências em um laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) estão trazendo resultados positivos para o tratamento de uma senhora de 57 com esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença que causa compromete progressivamente o controle dos músculos do corpo.

A ideia é fruto de um trabalho do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (Lais), onde foi elaborado o software Autonomus, implementado há cinco meses, tempo necessário para desenvolver o protótipo. O coordenador do Lais, Ricardo Valentim, que organizou um grupo formado por um fisioterapeuta e dois estudantes de engenharia da computação, diz que eles trabalhavam com estudos sobre distrofia muscular e se interessaram por fazer um projeto mais amplo, que atendesse aos pacientes com ELA e a tetraplégicos de uma maneira geral.

O que o Autonomus (tecnologia assistiva e não- invasiva) faz é estabelecer uma comunicação
(uma interface, no jargão dos especialistas) entre o cérebro e o computador, realizando uma análise do padrão de onda cerebral e transformando essa análise em um comando de computador. Através de um equipamento semelhante a uma diadema, o paciente pode mover o cursor em um computador, navegar pela internet, se comunicar através das redes sociais, conversar pelo Skype e fazer cursos à distância.

Também é possível, através do monitor do computador, fazer uma interpretação de vontades do paciente como ligar e apagar a luz; ligar e modular a temperatura do ar condicionado e controlar o funcionamento de uma televisão, coisas corriqueiras para nós, mas que se tornam um verdadeiro ato de liberdade quando executadas por pacientes com limitações de mobilidade e comunicação.

Valentim explica que as experiências sobre a interface homem máquina ocorrem desde a década de 1970, porém a aplicação dada pelo Autonomus, com a utilidade que ele já vem dando, a esse nível de simplicidade é inédita. “Pegamos um equipamento simples e demos um nível de aplicação que possibilita avanços significativos na vida do paciente, permitindo que a pessoa interaja com ambientes virtuais e tenha acesso a cursos a distância”, fala ele.

O dispositivo semelhante à diadema era uma tecnologia que já estava pronta e não é exatamente o cerne da pesquisa (o software é que foi criado pelo Lais) integra um eletro-encefalograma, um oculograma (capta o movimento dos olhos) e giroscópio (sensor de movimento da cabeça), ou seja, é um circuito integrado com três elementos. “Estamos usando uma tecnologia pronta, certificada, que qualquer pessoa pode comprar”, fala Valentim sobre o circuito integrado, batizado de Epoc e fabricado pela empresa Emotiv. O acesso completo ao programa acontece através do site do Lais, onde o download do Autonomus é feito gratuitamente.

O professor do Departamento de Fisioterapia da UFRN, Wagner Souza, acrescenta que para usar o equipamento é importante a pessoa ter a assessoria de seu terapeuta ocupacional, neurologista, psicólogo ou qualquer profissional que acompanhe esse tipo de paciente, para poder treinar ele no uso do software. Foi o que Wagner faz com dona Marlene, uma senhora de 57 anos que vem se beneficiando com o Autonomus.

Objetivo é alcançar o SUS

O fisioterapeuta diz que a tecnologia desenvolvida pelo Lais faz uma grande transição na área médica porque ela é de ponta, com um altíssimo custo, mas que hoje está mais acessível à população. Há 10 anos, para realizar um exame com um equipamento como o Epoc custava 15 mil euros (aproximadamente R$ 45 mil) e hoje o seu preço gira em torno de R$ 1,5 mil.

Embora o preço tenha caído consideravelmente, a maior parte da população doente não pode pagar por essa tecnologia. Por isso, o grupo disponibiliza gratuitamente o download do software no site do Lais e vai trabalhar para que o Sistema Único de Saúde (SUS) absorva o projeto. Uma portaria do Ministério da Saúde (MS) garante o atendimento gratuito aos pacientes com ELA. A ideia de Valentim e do grupo é que o MS ou órgão competente possa garantir o acesso ao Autonomus para os pacientes sem condições financeiras para bancar o equipamento. Além de Valentim e Souza, fazem parte da equipe os alunos de engenharia da computação Rodrigo Silva e Pablo Holanda.

Teste drive cabeça

O equipamento foi testado pela reportagem e impressiona pela simplicidade e eficiência no que se propõe a executar. O diadema neuro-tecnológico é de fácil colocação e não incomoda. O cursor na tela é movimentado de acordo com os movimentos da cabeça. Se eu quero que o cursor vá para cima, mexo a minha cabeça para cima; a mesma coisa quando quero mover ele para os lados.

Através do movimento dos olhos ou mesmo da concentração (por ondas cerebrais) é possível clicar em um link.

O equipamento também analisa o nível de atividade cerebral do indivíduo. Enquanto relaxado uma linha vermelha permanece imóvel, mas basta um cálculo (como 5 x 4 = 20) para a linha se modificar. O dispositivo também conta com um desenho que representa o estado emocional do paciente.

A DOENÇA
A esclerose lateral amiotrófica é uma das principais doenças neurodegenerativas e a sua incidência, de acordo com o MS, varia de 0,6 a 2,6 casos para cada 100 mil habitantes. É um distúrbio progressivo envolvendo a degeneração das células que comandam os músculos e o paciente vai perdendo os movimentos de forma progressiva.

“A pessoa se torna uma prisioneira do próprio corpo. Ela possui toda a faculdade cognitiva preservada, mas não mexe os membros. Vê e compreende tudo o que está em seu ambiente e não interage com ele”, explica Valentim. Quando os primeiros sintomas surgem, já foram perdidos mais de 80% dos neurônios motores.

Os principais sintomas ou sinais da doença são fraqueza, atrofia muscular, cãibras, distúrbios do sono, a incapacidade de pronunciar as palavras corretamente e distúrbios psicológicos.

Reprodução: Novo Jornal