AJUDA PSICOLÓGICA NEM SEMPRE RESOLVE - Principal técnica de intervenção em situações pós-traumáticas pode não só não ajudar como até piorar os danos
Geral
18.10.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Paloma Oliveto
Publicado no dia 18/10/10
Eles já receberam os primeiros socorros. Além dos cuidados físicos, contudo, os 33 mineiros chilenos que ficaram 70 dias enterrados vivos na mina San José, a 700m de profundidade, podem precisar cuidar da mente. A incerteza da sobrevivência, o isolamento e a situação claustrofóbica na qual se encontravam não deixam dúvidas de que as cicatrizes dos trabalhadores não vão ficar apenas na pele. Porém pesquisas mostram que as intervenções psicológicas mais comuns aplicadas em situações pós-traumáticas não só podem ser inócuas como, em algumas vezes, trazem mais danos a sobreviventes de desastres.
Especialista no tema, o Ph.D. em psicologia George A. Bonanno, professor da Universidade de Columbia, acaba de escrever um artigo que será publicado em um jornal da Associação de Psicologia Científica, nos Estados Unidos. No texto, ele afirma que a abordagem habitual tem falhado tanto em curto quanto em longo prazo. A chamada psychological debriefing, intervenção sem tradução em português e citada no Brasil pela designação original, consiste em uma única sessão, realizada logo após o trauma, na qual se discute o evento que deu origem ao estresse e os meios de reparar os danos.
De acordo com Bonanno, diversos estudos comprovaram que, além de ineficaz, a intervenção pode trazer mais problemas para as vítimas. Ele conta que, devido a essas pesquisas, logo após o tsunami que devastou, em dezembro de 2004, parte do sudeste asiático, a Organização Mundial de Saúde alertou, em seu website, que não recomendava a psychological debriefing para os sobreviventes da tragédia. A agência global sustentou que "a intervenção costuma ser ineficaz, com evidências de que pode também ser contraprodutiva, ao retardar a recuperação natural".
O especialista, que é chefe do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Columbia, diz que experiências também demonstraram que indivíduos com alto nível de estresse são, na verdade, mais predispostos a reagir desfavoravelmente a intervenções precoces do que aqueles que, embora tenham sofrido um trauma, não se mostram abalados. Para comprovar a afirmação, ele cita um estudo feito com sobreviventes de acidentes automobilísticos, publicado no Jornal Britânico de Psiquiatria. Os pacientes que receberam a sessão com menos de 24 horas de internação apresentaram um nível maior de estresse, mais dores e problemas físicos e, três anos depois, demonstraram mais medo de andar de carro, quando comparados aos motoristas que não receberam a terapia de imediato.