HIGIENE REDUZ INCIDÊNCIA DE BACTÉRIAS
Geral
27.10.2010
TRIBUNA DO NORTE | NATAL
Publicado no dia 27/10/10
Apesar da complexidade estrutural da bactéria Klebsiella pneumoniae carbapenemase, a KPC, Rosângela Morais, infectologista, afirma que não há motivos para maiores preocupações. A bactéria atinge pacientes que estão internados há algum tempo em unidades de terapia intensiva, idosos que fazem uso incorreto de antibióticos e jovens com um histórico de doenças graves. A médica aponta que medidas simples de higienização de ambientes e esterilização de equipamentos médicos, reduzem o número de micro-organismos causadores de infecções.
A bactéria KPC foi identificada nos Estados Unidos em 2006 e está restrita aos ambientes hospitalares e, em alguns casos, a residências nas quais há pacientes em tratamento especial (home care). “O problema da bactéria não se restringe apenas aos hospitais. Pode ocorrer também em pacientes que estejam em tratamento domiciliar. Porém, não há motivos para uma preocupação demasiada”, afirma Rosângela. O fator que determina a presença das bactérias resistente, segundo a médica, é o uso indiscriminado de antibióticos.
Ela explica que a ação dos antibióticos é como uma via de mão-dupla. Enquanto o medicamento age matando as bactérias causadoras de determinada infecção, outros microorganismos se tornam imunes ao medicamento, ficando cada vez mais fortes e agindo de uma forma diferenciada. O medicamento só cumprirá seu papel se for utilizado na medida e no tempo corretos. Do contrário, haverá uma espécie de drible das bactérias na medicação utilizada pelo paciente. Consequentemente, sem sentir os resultados, as doses de medicação ministradas serão cada vez maiores.
“As pessoas utilizam-se de antibióticos para tratar doenças virais, o que é errado. O uso indevido desse tipo de medicamento, por um longo período, pode gerar doenças complicadas”, comenta a infectologista. Um dos resultados da proliferação das bactérias no organismo humano é a septicemia, que consiste numa infecção generalizada causada por bactérias, como ocorreu com a modelo capixaba Mariana Bridi que faleceu em decorrência de choque séptico no início de 2009. De difícil compreensão, por se tratar de uma bactéria relativamente nova, as informações repassadas à população são contraditórias, em alguns casos. A incidência dessa bactéria, especificamente, se restringe aos ambientes nos quais pacientes estão em tratamento, hospitais, clínicas ou residências. Os pacientes mais suscetíveis são aqueles em estado grave, internados em UTI´s há muito tempo e debilitados imunologicamente. “A chamada superbactéria não oferece riscos para as pessoas sadias”, confirma a Dra. Rosângela.
Portaria regula venda de antibióticos nas farmácias
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou hoje uma nova portaria que regula venda de antibióticos. Os medicamentos só poderão ser vendidos com a receita prescrita pelo médico e a retenção da mesma pela farmácia, como já acontece com os remédios controlados de tarja preta, onde os pacientes recebem duas vias da receita e uma fica com os estabelecimentos, que deverão se adequar às novas normas em até 30 dias.
As medidas foram aprovadas depois de uma reunião realizada pela Anvisa, em Brasília, na semana passada, junto com microbiologistas e infectologistas de todo o país que discutiram os recentes casos de infecção provocados pela Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase (KPC). Medicamentos como Amoxilina, Azitromicina, Cefalexina, Sulfametoxazol + Trimetoprima e Sulfadiazina agora terão que ser obtidos através de receita médica que ficará na farmácia.
Para o presidente da Sociedade de Infectologia do Rio Grande do Norte, Ênio Godeiro, a fiscalização deverá ser feita não só devido ao surto desta bactéria, que já matou 18 pessoas em Brasília, mas para diminuir os riscos de novos surtos como esse. “Temos que ter a política de controle de prescrição de antibióticos e um controle rígido da saída de remédios dos hospitais”, alerta.
Outra medida adotada pela Anvisa, e publicada ontem, 26, no Diário Oficial da União, obriga o uso de álcool gel em todos os serviços de saúde do país para garantir a higienização antisséptica das mãos dos profissionais da área. As instituições têm 60 dias para se adaptar à nova regra.
Para Ênio Godeiro, a KPC é uma bactéria inteligente capaz de produzir substâncias que neutralizam ações de antibióticos. Ainda de acordo com Ênio Godeiro, as novas medidas adotadas pela Anvisa já eram reivindicadas pela Sociedade Brasileira de Infectologia e é um grande avanço para facilitar o controle de medicamentos dados a pacientes. “Ano passado fizemos uma campanha para que a venda desse tipo de medicamento fosse através de receita médica”, explica.
A farmacêutica Mariana Jácome também aprova a nova medida. “Com relação ao controle de antibióticos e a automedicação é bom, mas acredito que os médicos ainda irão prescrever esse tipo de medicamento de forma facilitada. Acredito também que com essa nova bactéria voltaremos a vender mais álcool em gel”. Para o vice-presidente e chefe de fiscalização do Conselho Regional de Farmácia, Jairo Sotero, deve-se ter a preocupação com outros casos parecidos como o da bactéria KPC.
Bate-papo
Rosângela Morais » infectologista
O que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibir a venda de antibióticos sem receita médica?
Essa é uma medida que os profissionais infectologistas consideram até tardia. O controle de antimicrobianos (antibióticos) sempre foi anunciado como uma das grandes estratégias para evitar a emergência de patogeno-resistentes (bactérias). A gente sabe que mesmo quando você usa de forma adequada isso já vai acontecer. E se você usa de uma forma incorreta, a situação piora. Existe mais gente tomando antibióticos fora do que dentro dos hospitais. São as pessoas que estão tomando remédio sem controle, que nem sempre haveria necessidade. Então, isso é o que acontece, de fato, com a utilização antimicrobiana. É uma medicação que desde que foi fabricada, ela deveria sair dos laboratórios com avaliação médica, com controle em relação à prescrição. Isso nunca aconteceu. Desde 1999 que a OMS fez um apelo internacional para se fazer campanhas de conscientização e cobra rigor na prescrição dos antibióticos. A mídia batizou a bactéria KPC de super bactéria, sabiamente, e, de fato, as pessoas começam agora a entender seu funcionamento.
A proibição da venda de antibióticos sem prescrição médica reduz o índice de incidência da KPC?
É possível que a gente consiga, com uma utilização mais racional, frear essa situação que está desenfreada hoje. A KPC é um dos mecanismos que algumas bactérias utilizam para se livrar dos antibióticos, mas existem muitos outros.
A medida da Anvisa é, de fato, correta?
Corretíssima. Lamento que só tenha acontecido agora. Do jeito que está, não dá para continuar. E isso extrapola os limites das instituições hospitalares. A população deve ser consciente do uso indiscriminado de antibióticos que pode resultar numa infecção por KPC.
Além da medida da Agência, quais são as outras medidas que podem ser adotadas ?
A utilização de antissépticos, higienização anterior e posterior ao contato com pacientes, limpeza dos aparelhos médicos, são de suma importância. O álcool consegue matar as bactérias e deve ser usado.
Em Natal, há algum caso confirmado de KPC?
Não temos como confirmar porque em Natal não há um laboratório de biologia molecular.