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PERIGO EM CONSTANTE MUTAÇÃO - Enquanto a medicina descobre novos antibióticos, as super-bactérias se fortalecem e encontram brechas

Geral

08.11.2010

 

DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE

Por: Márcia Neri / Sílvia Pacheco

Publicado no dia 08/11/10

 

Ainda que invisível a olho nu, a bactéria super-resistente Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KCP) está sob os holofortes do noticiário nacional depois de ter atingido pacientes internados em hospitais de norte a sul do Brasil. No Distrito Federal, até a última sexta-feira, o micro-organismo atingiu pelo menos 194 pessoas e foi responsável pela morte de 18. A mazela, porém, não é exclusividade brasileira – e, tampouco, algo inédito ou inesperado. Há pelo menos meio século, surtos de infecção hospitalar por bactérias resistentes atingem países de todo o mundo, resultando em um grande números de mortes. De tempos em tempos, esses pequenos seres surgem mais fortes e com mecanismos de resistência tão elaborados que nem o antibiótico mais potente consegue detê-los.
 
E assim a luta prossegue: a medicina avança e desenvolve novas drogas, para logo serem superadas pela mutação das bactérias. Os micróbios aperfeiçoam suas defesas e criam artifícios para driblar a ação dos remédios, provocando uma guerra sem tréguas com a ciência.

O grau de resistência de bactérias é variável de região para região do planeta, porque depende de uma série de fatores. A autodefesa, aliás, é um processo natural da espécie. A super-resistência é que é uma consequência do uso indiscriminado de antibióticos. Além da KPC, cinco tipos de bactérias super-resistentes desafiam a infectologia atualmente. Diante da Pseudonoma aeruginosa, da Acinetobacter baumannii, da Enterococo resistente à vancomicina (VRE, sigla em inglês), da Escherichia coli e da Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), muitas vezes, os especialistas ficam de mãos atadas. Elas integram o grupo mais comum de micróbios causadores de infecção hospitalar em todo o planeta.

Imagine uma terra plana, produtiva e desocupada. Em pouco tempo, aparecerá alguém que se interesse por cultivá-la. No organismo dos seres humanos, ocorre o mesmo. A pele, a boca, o esôfago e o intestino abrigam uma flora bacteriana imensa. São bactérias que todos têm no corpo. A maioria delas não se revela maléfica à saúde e até serve para proteção dos inimigos invisíveis. Quando, porém, antibióticos e quimioterápicos são prescritos, essa flora "do bem" desaparece e ressurge um terreno fértil e desabitado, agora favorável à colonização de micro-organismos que mutaram e se tornaram resistentes aos medicamentos que o paciente está ou esteve tomando. "No ambiente hospitalar, os pacientes ficam debilitados por conta do estresse metabólico, do uso de drogas imunossupressoras e de procedimentos invasivos. Indivíduos com sondas e cateteres são um prato cheio para a colonização e, eventualmente, infecção por essas bactérias mais resistentes", explica Luís Gustavo de Oliveira Cardoso, infectologista e coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 
Inimigas ocultas e oportunistas

A infectologista do Laboratório de Resistência Bacteriana da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Cristina Gales explica que as bactérias super-resistentes são extremamente oportunistas. No ambiente hospitalar, a Pseudonoma aeruginosa é capaz de infectar e se reproduzir rapidamente em diversos materiais, como cateteres, ventiladores (respiradores mecânicos) e próteses. Ela é responsável pela maioria das pneumonias adquiridas no hospital, porque atinge o aparelho respiratório. "O alvo principal são indivíduos entubados, que respiram com a ajuda de máquinas. Contudo, ela também pode causar infecção no trato urinário, em queimaduras e na corrente sanguínea", pontua.

Relatos médicos indicam que as primeiras infecções hospitalares por cepas multiresistentes da P. aeruginosa surgiram em 1991. No Brasil, segundo Gales, essa bactéria é considerada multirresistente na maioria dos hospitais. "É um patógeno que não responde a três classes de antibióticos diferentes. Tudo leva a crer, porém, que ele conseguirádriblar outros antibacterianos, inclusive os mais novos", acrescenta a infectologista.

Há alguns anos a Staphylococos aureus resistente à meticilina (MRSA) é uma das bactérias multirresistentes que mais preocupam os médicos, devido à rapidez de suas mutações e à evolução de seus mecanismos de defesa. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), em 1990, a MRSA se apresentava parcialmente resistente à vancomicina, uma droga de última instância utilizada no tratamento de diversas infecções resistentes. Entre 2002 e 2004, foram notificados dois casos de resistência total. A bactéria é encontrada na pele e no nariz. A principal causa de infecção pela MRSA está associada ao uso do cateter venoso central. "Geralmente, ela entra por um cateter que está ligado à veia central do paciente, se não houver limpeza e troca adequadas do material", diz Gales

Já as Enterococos resistentes à vancomicina (VRE) habitam o trato gastrointestinal e genital feminino. Reconhecidas como uma importante causa de infecção hospitalar, são responsáveis por complicações urinárias e transmitidas por meio dos profissionais de saúde ou de equipamentos e artigos médicos (termômetros, estetoscópios) e superfícies (mesa, maçaneta, telefone, bandeja de medicação). Além de desenvolver reação aos agentes antimicrobianos utilizados no tratamento de infecções enterocócicas, as bactérias desse grupo transferem essa resistência a outras espécies. No Brasil, o primeiro VRE foi identificado em 1996, em um hospital de Curitiba. A partir de então, relatos de isolamento de VRE são descritos em diversos hospitais brasileiros.

 
Corrida contra o tempo

A KPC é uma abreviação de Klebsiella pneumoniae produtora da carbapenemase, uma enzima capaz de quebrar a molécula dos antibióticos usados para tentar debelá-la. Como a maioria das enterobactérias, ela está presente em todo trato digestivo, da boca ao ânus. Sem controle, acaba provocando infecção generalizada e levando o paciente à morte. Sua ação é tão rápida que os profissionais da saúde não têm tempo hábil para estabelecer nova estratégia de tratamento com outras medicações. Embora seja o centro das atenções de especialistas no Brasil, a KPC fez e faz vítimas em diversos países, como Israel, China e França. A bactéria foi identificada pela primeira vez em um hospital da Carolina do Norte (nos EUA), em 2001, e o primeiro surto ocorreu em Nova York, em 2003, quando 47% dos afetados morreram.

Médicos correm contra o tempo na tentativa de salvar os pacientes. Hospitais lotados, poucos profissionais para atender dezenas de doentes e o uso indiscriminado de antibióticos colaboram para que as bactérias estejam emvantagem nessa competição.

 

Fonte: DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE