TIREOIDE INFLUENCIA O CORAÇÃO - Estudo internacional mostra que hipotireoidismo pode aumentar as doenças cardiovasculares
Geral
11.11.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Márcia Maria Cruz
Publicado no dia 11/11/10
Belo Horizonte – Uma forma leve e assintomática do hipotireoidismo (deficiência na produção de hormônios tireoidianos) aumenta o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e coronarianas, como infartos e anginas. O hipotireoidismo caracteriza-se pela baixa ou não produção de hormônios na tireoide, podendo também causar o aumento de volume dessa glândula.
Embora a relação de causalidade já houvesse sido comprovada em casos de hipotireoidismo instalado, não existiam estudos científicos que confirmassem a relação de problemas coronarianos com os casos mais leves da doença. "Não havia consenso sobre o impacto no risco cardiovascular", diz um dos coordenadores da pesquisa Hipotiroeidismo subclínico e mortalidade, o professor de endocrinologia da Faculdade de Medicina de Marília (Famema) José Augusto Sgarbi.
A conclusão de que esse risco é real foi constatada a partir de um estudo internacional produzido com participação brasileira. A pesquisa baseia-se no histórico de mais de 55 mil pacientes que foram acompanhados por diferentes períodos, entre 1972 e 2007, no Brasil, nos Estados Unidos, na Austrália, no Japão e na Europa. O estudo foi publicado no Journal of American Medical Association, um dos mais importantes periódicos da área médica. Também repercutiu em outras revistas científicas, como o Annals of Internal Medicine e o British Medical Journal.
Juntamente ao professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Rui Maciel, José Augusto analisou 11 estudos realizados ao redor do mundo. Até então, muitos trabalhos eram controversos em relação à forma assintomática da doença. Além disso, em termos estatísticos – entre 1 mil e 3 mil pacientes pesquisados -, os estudos eram limitados. Para se chegar a uma amostragem representativa, foram agrupados estudos feitos com a mesma metodologia e as mesmas variáveis, como faixa etária e gênero.
Hormônio deficiente
Na pesquisa internacional, os médicos constataram que a forma leve e assintomática de hipotireoidismo aumenta o risco de novos episódios de doenças coronarianas em até 89%, e eleva a possibilidade de morte por essa enfermidade em até 58%, principalmente nas pessoas com idade entre 50 e 75 anos. A prevalência do hipotireoidismo subclínico entre a população é de 6% e atinge principalmente mulheres na pós-menopausa, além de idosos a partir de 60 anos.
"A deficiência na produção desses hormônios pode ser determinante para o aparecimento de doenças cardiovasculares, por aumentar os níveis séricos do colesterol, acelerar o processo de aterosclerose, causar lesão no endotélio vascular (parede do vaso sanguíneo) e na coagulação sanguínea", diz José Augusto, que apresentou os resultados da pesquisa no Congresso Internacional de Tireoide, realizado em Paris. Até então, o hipotireoidismo subclínico não era visto com tanta preocupação, uma vez que não se manifestava clinicamente. Só era identificado em exames laboratoriais, em função da alteração nos níveis do hormônio TSH, produzido pela hipófise. Essa substância regula a produção dos hormônios tireoidianos (T3 e T4). Como a disfunção não causa alterações expressivas da glândula tireoide, havia dúvida se ela deveria ser tratada ou não – o que foi rebatido pelo estudo internacional.
As pessoas que estão com o nível de TSH compreendido entre 0,5 e 4,5mUI/L (unidade laboratorial) têm quadro clínico considerado normal. Entre 4,5 e 10mUI/L, enquadram-se os que estariam com hipotireoidismo subclínico. Acima de 10, a doença já está instalada. Até então, os tratamentos eram prescritos para pessoas cujo nível de TSH estava acima de 10. Com o resultado da pesquisa, os endocrinologistas devem mudar a perspectiva do tratamento. "O risco começa a aparecer com nível igual ou superior a 7. As sociedades de tireoide ao redor do mundo terão de discutir os resultados e propor novos paradigmas de tratamento", afirma José Augusto.
Quando o hipotireodismo se instala, o aumento da glândula não éacompanhado de mais produção dos hormônios, mas sim pela queda na produção dos hormônios tireoidianos T3 e T4. Como outros males da tireoide, embora o hipotireoidismo seja mais comum em mulheres, pode ocorrer em qualquer indivíduo independentemente de gênero ou idade. Os hormônios tireoidianos têm a função de controlar todo o metabolismo e a atividade celular do organismo.
SAIBA MAIS
Hipotireoidismo subclínico
l A prevalência do hipotireoidismo subclínico entre a população é de 6% e atinge principalmente mulheres na pós-menopausa e idosos a partir de 60 anos
Hipotireoidismo
l O hipotireoidismo se caracteriza pela baixa ou a não produção de hormônios na tireoide, podendo também causar o aumento de volume dessa glândula. Ele está relacionado a doenças coronarianas ou cardiovasculares porque leva a um aumento do colesterol, acelera o processo de aterosclerose, induz alterações na coagulação sanguínea e na parede vascular da artéria coronariana
A pesquisa
l Metodologia – O estudo internacional se baseou no histórico de mais de 55 mil pacientes que foram acompanhados por diferentes períodos, entre 1972 e 2007, no Brasil, nos Estados Unidos, na Austrália, no Japão e na Europa.
l Resultados – Em pessoas com nível de TSH igual ou superior a 7Mui/L, aumenta em 89% o risco de novos episódios de doenças coronarianas.
No caso de morte por essas enfermidades, o índice sobe até 58%.