INFECTOLOGISTA ALERTA PARA EPIDEMIA
Geral
19.11.2010
TRIBUNA DO NORTE | NATAL
Por: Ricardo Araújo
Publicado no dia 19/11/10
“Em 2011 ou 2012, iremos ter uma grande epidemia de dengue com a disseminação do sorotipo 4”. Com essas palavras, o infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Hênio Lacerda, aponta a gravidade do assunto. O lixo espalhado pela cidade, a falta de consciência da população, a ausência de saneamento básico em diversos bairros da cidade, além das comunidades carentes, contribuem para a proliferação dos criadouros do mosquito transmissor da dengue.
Para reduzir o número de infectados e possíveis mortes causadas pela dengue, a Secretaria Estadual de Saúde (Sesap), está ministrando uma capacitação para médicos e enfermeiros dos 27 municípios da regional de São José de Mipibu. “O treinamento tem o objetivo de chamar a atenção dos profissionais para o pronto-diagnóstico da dengue. É importante que médicos e enfermeiros consigam distinguir o tipo clássico do hemorrágico”, comenta Lacerda.
No Rio Grande do Norte, de acordo com boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, quatro cidades correm o risco de ser berços de epidemia, são elas: Caicó (4,2%), Mossoró (4,6%), São Miguel (8,5%) e Ceará-Mirim (11,7%). Em Ceará-Mirim, a cada 10 imóveis inspecionados, um estava com focos de larvas do mosquito da dengue. Para o infectologista, a população deve ser consciente do seu papel no que diz respeito aos cuidados que devem ser tomados contra a proliferação do mosquito.
“As pessoas não entenderam ainda a gravidade dessa doença. A dengue mata, isso é fato”. Dentro do treinamento, Lacerda mostra aos médicos e enfermeiros como identificar a dengue na sua forma mais complicada, a hemorrágica. Segundo ele, pacientes com dores abdominais ininterruptas, vômito repetitivo, tontura com sensação de desmaio, devem ser internados rapidamente e tratados com soro e antibióticos.
Com a disseminação do tipo 4 do vírus, o índice de contaminação pode chegar a patamares de epidemia, pois é como se a doença jamais tivesse atingido o Brasil. Ou seja, o organismo de quem já teve dengue – da simples ou sobreviventes da hemorrágica – criaram anticorpos contra a doença. Porém, com o sorotipo 4, toda a população está zerada, sem anticorpos, e suscetível a contrair a doença nas formas branda e severa (que pode levar à morte).
Por ainda não dispor de uma vacina que previna a doença, Lacerda afirma que a prevenção é a única arma contra o mosquito até, no mínimo, os próximos dez anos. Para ele, apesar da ampla divulgação de campanhas educativas, operações nas escolas, a sociedade ainda não despertou para quão perigosa a doença pode se tornar. “A questão da consciência coletiva é a condição que pode diminuir o número de casos”.
De acordo com a subcoordenadora de Vigilância Epidemiológica da Sesap, Juliana Araújo, as ações de combate ao mosquito não podem se restringir aos municípios que apresentaram os maiores índices de infestação no estado. “A Sesap fará o acompanhamento e monitoramento das ações de prevenção em todo o Rio Grande do Norte”. As ações incluem parcerias com as prefeituras municipais para a coleta regular do lixo, abastecimento regular de água, levantamento do índice de infestação predial e identificação dos sorotipos (vírus) que circulam no estado. “A gestão municipal (incluindo cidades do interior) deve colocar a dengue como problema de saúde pública”, enfatiza Juliana.