A CHAVE DA AUTOCONSCIÊNCIA - Pessoas com maior capacidade de introspecção têm mais densidade da chamada substância cinzenta
Geral
27.09.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Rodrigo Craveiro
Publicado no dia 27/09/10
Cientistas britânicos podem ter encontrado a chave do conhecimento de um ser sobre si mesmo. O segredo da introspecção, da autoconsciência, está numa área muito pequena do córtex pré-frontal do cérebro, atrás dos olhos. Em entrevista, o britânico Geraint Rees – diretor do Instituto de Neurociência Cognitiva da University College London (UCL) – contou que ele e sua equipe usaram imagens de ressonância magnética estrutural (MRI, pela sigla em inglês) para determinar se alguma região cerebral específica mostrava correlação entre sua estrutura e o nível de introspecção de um paciente. "Descobrimos que o córtex pré-frontal apresentou forte associação entre a densidade da substância cinzenta e a capacidade de introspecção", explica Rees, autor da pesquisa publicada pela revista científica Science. "Quanto mais introspectivos os voluntários eram, mais substância cinzenta possuíam nessa área do cérebro", acrescenta.
Medir o nível de autoconsciência ou de introspecção de um indivíduo era um dos maiores desafios para os neurocientistas até que Rees propôs um teste a 32 pessoas. Cada uma delas veria dois monitores contendo seis figuras: em apenas uma das telas, uma das imagens seria mais brilhante que as restantes. "Pedimos que elas repetidamente detectassem um alvo tênue. Antes que disséssemos se estavam ou não corretas na detecção do alvo, solicitamos que avaliassem o grau de confiança em relação à resposta que seria dada", relata o especialista. "A avaliação de confiança requer a entrada no campo da introspecção, já que elas mesmas se perguntariam se estavam certas da exatidão da resposta", emenda. De acordo com ele, as pessoas mais instrospectivas eram capazes de associar sua confiança à performance.
Após coletarem as imagens do cérebro, os cientistas mediram até que ponto a estrutura cerebral previu a performance do voluntário durante o teste. "O que é excitante sobre essa nossa descoberta é que ela liga um fenômeno complicado – pensar sobre pensar (ou introspecção) – à estrutura do cérebro humano", ressalta Rees. Algumas teorias propõem que tal habilidade mostra-se especialmente importante para os seres humanos. "Isso nos levou a especular que tal capacidade nos torna seres cônscios. Ainda não testamos essa proposta, mas, se ela estiver correta, preencherá uma peça a mais no quebra-cabeça da compreensão da consciência", comenta o autor do estudo.
Aplicações
Por enquanto, Rees vê o uso de sua descoberta em duas vertentes importantes. Em primeiro lugar, ele acredita que será possível começar a entender como os pensamentos influenciam as reações das pessoas a doenças e tratamentos. "Algumas pessoas com danos cerebrais sofrem de anosgnósia, um estado neurológico caracterizado pela incapacidade de se estar consciente da sua própria doença. Nossos achados fornecem uma possível resposta para isso", afirma. Em segundo lugar, pacientes que se submetem a terapias difíceis têm de pensar sobre seus pensamentos. "É preciso lembrar de tomar os medicamentos e retornar ao médico após a cirurgia. Muitos falham completamente em concluir o tratamento e, em algumas doenças psiquiátricas – como a esquizofrenia -, a não conformidade é um problema reconhecido", alerta. A partir do atual estudo, os especialistas da UCL terão condições de começar a investigar essas questões.