AMBULÂNCIAS FICAM PRESAS NO HWG
Geral
01.09.2010
TRIBUNA DO NORTE | NATAL
Por: Isaac Lira
Sem macas, sem luvas, sem seringas, sem materiais básicos para o atendimento médico ao público e com 10 ambulâncias presas no pátio. O Hospital Walfredo Gurgel teve ontem uma manhã difícil. Enquanto profissionais reclamavam da falta de insumos básicos, como luvas, a superlotação do hospital provocou a ausência de macas para receber pacientes que chegavam nas ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Com isso, ficaram presas dentro do hospital as macas das ambulâncias, que, por sua vez, esperaram horas até poder voltar ao trabalho.
O cenário do pátio principal do Hospital Walfredo Gurgel, ao meio dia, era o seguinte: ambulâncias paradas e enfermeiros e condutores do Samu conversando fora dos veículos. O grupo batia papo enquanto as macas das ambulâncias estavam dentro do hospital, sem poder sair porque não havia onde deixar os pacientes. Do lado de dentro, a situação não era melhor. Somente nos corredores havia 44 macas com pessoas internadas. Contrariando decisão da Justiça, o Walfredo Gurgel voltou a atender pessoas nos corredores.
O motivo alegado pela direção do Hospital é a demanda excessiva. Não é segredo que o Walfredo Gurgel é o único serviço “porta aberta” para todo o Estado. Como o Hospital vive superlotado, os pacientes acabam ocupando macas improvisadas nos corredores, ao invés de leitos hospitalares. E como as macas abrigam pacientes praticamente internados não há onde colocar os que chegam pelo Samu. Assim nasce o caos. Não se pode deixar o paciente em uma cadeira ou no chão.
As ambulâncias esperaram entre duas e seis horas ontem pela manhã para conseguir voltar ao trabalho. Em um determinado momento, havia 10 veículos à espera, o que significa praticamente metade do total disponível para atender toda a região metropolitana. São 12 ambulâncias básicas no Samu Metropolitano e nove no Samu Natal, além de quatro veículos equipados com UTI. Segundo as coordenações dos dois serviços, a paralisação das atividades ontem pela manhã não resultou em falta de atendimento para casos graves.
No que diz respeito ao acúmulo de pacientes nos corredores, a situação, contornada há alguns meses, caminha lentamente para ser novamente grave. No início de janeiro, após anos de luta do Ministério Público, os corredores do Hospital ficaram livres de pacientes. A conquista foi mantida por alguns meses, mas lentamente retornou ao estágio inicial.
Ontem havia 44 macas com pessoas sendo atendidas nos corredores, sendo 12 delas com problemas ortopédicos. Nesses casos, o Município de Natal tem a responsabilidade de transferir os pacientes para a rede privada conveniada. Em um desses casos, o usuário espera desde o dia 17 de agosto – exatos 15 dias completados hoje – a transferência para outro local. Em outras palavras, esse e outros pacientes estão sendo tratados no corredor, com macas que funcionam na prática como leitos improvisados.
A acomodação dessas pessoas em local inapropriado é um descumprimento da Secretaria Estadual de Saúde de uma decisão da Justiça, conseguida por ação civil pública impetrada pelo MP. O HWG e a Sesap reconhecem o problema e afirmam estar trabalhando para resolvê-lo. O HWG informou através de sua Assessoria que a causa para o problema é a superlotação provocada pela demanda excessiva de pacientes tanto do interior quanto da capital. A Sesap informou ter pedido ajuda ao Conselho Regional de Medicina para resolver o problema.
A reportagem tentou contato com a promotora Iara Pinheiro, responsável pela ação civil pública que trata das macas nos corredores, mas não obteve resposta.
Coordenador do Samu relata problemas
O coordenador médico do Samu Metropolitano, Jailson Vale, explicou que a retenção das ambulâncias na porta do Walfredo Gurgel por falta de macas tem se tornado uma rotina, inclusive com o número de veículos verificado ontem. Dentre as ambulâncias “presas” ontem, o Samu Metropolitano tinha cinco do seu efetivo. O restante era do Samu Natal. “Infelizmente tem se transformado em uma rotina, mas sabemos que é um problema do sistema como um todo e não somente do Walfredo Gurgel”, aponta Jailson.
Ivan Cardoso, coordenador de regulação do Samu Natal, acrescentou que o Serviço procura enviar pacientes para o Hospital somente em último caso. “Tentamos ver todas as possibilidades antes de enviar para o Walfredo porque sabemos das dificuldades, mas em alguns momentos não dá para evitar”, diz Ivan. Os profissionais que lidam diariamente com o problema da superlotação e falta de macas apontam uma piora na situação nos últimos meses.
Revolta
Além dos problemas com a superlotação, os profissionais do Walfredo Gurgel têm tido de conviver com a falta de materiais básicos de trabalho, como luvas e seringas. O abastecimento do Walfredo Gurgel é feito de forma inconstante há algum tempo, mas desde o fim da última semana a situação chegou em um nível crítico. De acordo com médicos que passaram pelo plantão recentemente, falta também medicamentos. Profissionais do Samu Metropolitano denunciam o desabastecimento em toda a rede estadual.
O médico intensivista Sebastião Paulino relatou que na última sexta-feira não havia luvas esterilizadas, luvas de procedimento e glicose na UTI do Hospital. Já o clínico geral Kaliandre Medeiros citou a inexistência de diversos tipos de fios para sutura no setor de emergência do Walfredo Gurgel. Marcelo Melo, diretor estadual do Sindsaúde, explicou o procedimento dos profissionais para conviver com o problema. “A farmácia tenta pedir emprestado o material de outras unidades. Hoje (ontem) pela manhã eles pediram ao Natal Hospital Center. Mas é uma solução paliativa porque em questão de horas o material acaba novamente”, encerra.
A Sesap afirmou estar trabalhando para resolver o problema do desabastecimento. A troca de material entre as unidades é uma dessas medidas possíveis. Além disso, uma licitação está em curso para adquirir os itens em falta permanentemente.