3201 5491

FALE COM A GENTE

ÁREA DO COOPERADO

Audição infantil: detecção precoce é o mais importante

Geral

24.02.2013

A vida é diferente quando se tem audição – mesmo que seja uma audição artificial. O ser humano, quando criança, aprende a falar naturalmente na medida que ouvem os pais e os amigos se comunicarem. As com deficiência auditiva acabam sem ter esse benefício. Os cuidados com a audição infantil são muito importantes, uma vez que ela influencia na capacidade de aprendizagem, sociabilidade e comunicação.

Se a criança sofre de perda de audição, a melhor providência a ser tomada é fazê-la usar aparelho auditivo, pois desse modo a capacidade auditiva dela será melhorada e problemas maiores poderão ser evitados. Entretanto, há casos mais graves que exigem um tipo de condicionamento cirúrgico: o implante coclear.

Um implante coclear é um pequeno dispositivo eletrônico que ajuda a fornecer a noção de som a uma pessoa que tem deficiência auditiva severa ou profunda. O implante é cirurgicamente colocado sob a pele atrás da orelha. O objetivo desse método não é recuperar ou criar uma audição normal, mas sim dar a uma pessoa surda um entendimento auditivo do ambiente e ajudá-la a compreender a fala.

Milhares de crianças e adultos têm recebido implantes cocleares. Esses implantes foram desenvolvidos para pessoas que obtêm pouco benefício com aparelhos auditivos, compensando as partes danificadas ou inativas do órgão. A ‘orelha interna’ converte ondas sonoras em impulsos elétricos. Esses impulsos são enviados para o cérebro, que passa a identificar o som. Um implante coclear funciona de forma semelhante. Ele encontra, eletronicamente, sons proveitosos e, então, os manda para o cérebro.

Ouvir através de um implante soa diferente de uma audição normal. Entretanto, implantes cocleares permitem que muitas pessoas se comuniquem e desenvolvam a sociabilidade mais rapidamente. Mas para entender como um implante coclear funciona, é importante entender como ouvimos.

O ouvido externo coleta as ondas sonoras e as manda para a orelha média. As ondas sonoras são refletidas no tímpano e são ampliadas por três ossículos: martelo, bigorna e estribo. As ondas viajam para orelha interna, cheia de fluido, e atravessam a cóclea (o órgão da audição que dá nome ao implante). Na cóclea, células microscópicas transformam as vibrações em impulsos elétricos. Dessa forma, o cérebro recebe e interpreta essa energia como som ou fala.

“Os implantes cocleares aproveitam aquilo que um ouvido ainda pode fazer após as células capilares terem sido danificadas ou destruídas”, aponta o otorrinolaringologista Rodolpho Penna Lima Júnior, coordenador do Programa de Implante Coclear no Rio Grande do Norte, que já realizou mais de 640 casos de pacientes implantados em todo o Brasil.

Ainda nos primeiros dias de vida, alguns exames realizados na maternidade permitem identificar diversas doenças no bebê. A surdez pode ser de causa congênita, quando a criança já nasce surda, ou adquirida. Mas o médico especialista aponta para duas situações importantes que devem ser bem trabalhadas: a assistência médica ao parto e o diagnóstico precoce.

“Muitas vezes, a má assistência implica em um parto complicado. A criança pode não ter oxigenação cerebral adequada no momento do nascimento, precisando vir a ficar na UTI, onde precisa ficar tomando antibiótico. Todos esses fatores agridem a audição da criança”, afirma Rodolpho Penna Lima.

Em relação ao diagnóstico precoce, o médico afirma que a Medicina aponta condições de ter diagnósticos já nos primeiros dias de vida. “É preciso realizar exames em todas as crianças que nascem, de preferência até os três meses de vida. Não existe mais essa história de esperar que a criança cresça para ter um melhor diagnóstico. Hoje a Medicina já garante exames que identificam deficiências nos primeiros dias de vida”, disse.

Natal tem um dos centros mais especializados do país, referência em otorrinolaringologia e fonoaudiologia no Norte-Nordeste do Brasil – o Otocentro, funcionando atualmente no Hospital do Coração, com credenciamento do Ministério da Saúde. Os exames são oferecidos gratuitamente pelo SUS, com cobertura também pelos planos de saúde, que cobrem todo o tratamento e são obrigados a dar os exames.

Aparelho Auditivo e Implante Coclear

Todo recém-nascido deve fazer o teste da orelhinha no primeiro mês de vida, um exame rápido que verifica se a criança responde a um estímulo sonoro. Se o teste da orelhinha acusa deficiência auditiva, o primeiro passo é consultar o especialista para complementar a avaliação. Assim, a criança inicia logo o tratamento, podendo ser através de estímulos sonoros, terapias de reabilitação, próteses que amplificam o som e até de cirurgia, como o implante coclear.

Tudo depende do grau da deficiência, que pode ser leve, moderada, severa ou profunda. “Para saber se a criança vai precisar fazer o implante, é importante antes realizar uma intervenção. É interessante ver o desempenho da criança com o aparelho auditivo até o sexto mês de vida. A criança coloca o aparelho e passa a fazer uma readaptação com uma fonoaudióloga. Se ela não tiver um bom desempenho – desenvolvendo audição e fala, ela é indicada à cirurgia de implante coclear”, avaliou Rodolpho.

A diferença existente entre o aparelho auditivo e o implante, explica Rodolpho Penna Lima, é o modo de estimulação. “De maneira mais simples, denominamos o aparelho auditivo como um amplificador sonoro. O funcionamento do aparelho se dá com a entrada de som e saída de som. Já o implante permite a entrada de som e saída de impulso elétrico. Um age acusticamente e o outro eletricamente”, disse.

O Sistema Nervoso Central só entende impulso nervoso. Se as células que transformam o som em ondas elétricas estiverem mortas, a criança só poderá se reabilitar com a ajuda do implante coclear. “Se a criança perder uma população pequena dessas células, é possível usar o aparelho auditivo. Mas se o déficit atinge a todas as células, é necessário o implante. Não existe um exame onde a gente possa quantificar as células mortas. Por isso, é necessário que a criança use primeiramente o aparelho auditivo. É o desenvolvimento dele que irá apontar a necessidade do implante coclear”.

O implante consiste de cinco partes básicas: um microfone, um processador de fala, um transmissor, um receptor/estimulador e um arranjo de eletrodos.O microfone da unidade externa capta o som e o transforma em sinais elétricos. Estes sinais são enviados para o processador de fala onde são codificados e enviados para a antena externa.

A antena externa envia estes sinais para a antena interna. A antena interna envia-os para o receptor/estimulador, os quais são enviados para a cóclea através do feixe de eletrodos. Por sua vez, o feixe de eletrodos intra coclear estimula as fibras do nervo auditivo.

“A reabilitação auditiva é fundamental no sucesso da cirurgia de implante, principalmente nas crianças, as quais iniciarão o processo de aprendizado da compreensão e produção da fala após a ativação do implante”, afirmou Rodolpho, esclarecendo casos de pessoas que também podem vir a precisar do implante coclear quando adquirida surdez fase adulta.

O implante coclear é indicado para portadores de surdez de grau severo a profundo; que não se beneficiam com o uso de aparelhos auditivos (após realizados testes para a verificação do benefício); portadores de surdez congênitas (presentes ao nascimento) e adquiridas (após nascimento); com condições psicológicas adequadas; com expectativas realistas quanto aos possíveis resultados; com (re)habilitação auditiva adequada na cidade onde reside; adultos, idosos e crianças acima de seis meses; motivados para a cirurgia; com ciência da cirurgia e possíveis complicações.

Há pacientes implantados que conseguem falar ao telefone como também há pacientes cujo implante ajuda apenas a perceber os sons sem conseguir compreender a fala. O quanto a pessoa implantada será capaz de compreender depende de muitos fatores, dentre eles o tempo que a pessoa ficou sem ouvir (tempo entre a perda auditiva e a cirurgia de implante), se o paciente já ouviu em algum momento ou não, se tem algum código linguístico estabelecido (sabe se comunicar de alguma forma), etc.

Pessoas que ouviam normalmente e, por qualquer motivo, vieram a perder a audição e então foram implantadas, relatam que o som proporcionado pelo implante coclear é um tanto robótico, metálico. Por outro lado, devolver a alguém que nada escuta alguma sensação sonora, muitas vezes permitindo a compreensão da fala, é sem dúvida um grande progresso.

Reprodução: Jornal de Hoje