CICATRIZAÇÃO MAIS RÁPIDA - Bióloga experimenta aplicação de células-tronco em áreas queimadas e consegue regeneração total
Geral
20.12.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Rebeca Ramos
Publicado no dia 19/12/10
A aplicação de células-tronco mesenquimais (CTMs) – que têm propriedades regenerativas e estão presentes em praticamente todos os órgãos do corpo – em queimaduras graves acelerou o tratamento e cicatrizou 100% da área afetada nos camundongos utilizados em um experimento na Universidade de São Paulo (USP). Os testes, que duraram 60 dias, fazem parte de uma dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Medicina da USP. A técnica é uma aposta promissora para a terapia de queimaduras que atingem até 80% do corpo do paciente. Nesses casos, a mortalidade é alta, pela falta de alternativas eficazes que impeçam infecções por meio de um tratamento rápido.
Para realizar o experimento, foi preciso multiplicar as CTMs. A autora do estudo, a bióloga Carolina Caliari, retirou células-tronco da medula óssea dos camundongos sem queimaduras e as cultivou em laboratório. As CTMs se separam umas das outras, aderindo ao plástico das garrafas de cultivo. "O objetivo era que permanecessem somente as CTMs, paraque se multiplicassem até chegar à quantidade suficiente para a terapia", descreve. Essas células foram aplicadas, com seringa, nas feridas abertas pelas queimaduras.
Segundo Carolina, os animais tratados com as CTMs, camundongos com 40% do corpo com queimaduras de terceiro grau, tiveram uma recuperação mais rápida quando comparados aos que não as receberam. "Os que foram tratados com placebo apresentaram apenas 80% de cicatrização", ressalta. Ela observou ainda o equilíbrio entre os linfócitos TCD4 e TCD8, que fazem parte do sistema imunológico. "As células mostraram potencial modulador do sistema imunológico e podem ter controlado a proliferação exagerada dos TCD8 no organismo, o que possivelmente interferiu positivamente na melhora dos animais", acrescenta.
A hipótese para tal resultado pode ser a capacidade das CTMs de segregar moléculas que atraem outras células para o local a ser cicatrizado; ou seja, as células podem ter liberado substâncias capazes de induzir a formação de novos vasos sanguíneos – e isso é extremamente benéfico para a cicatrização. Mesmo sendo um sucesso, os resultados obtidos são preliminares e experimentais, mas existe a possibilidade, futuramente, de a técnica ser utilizada em queimaduras humanas.
De acordo com Carolina Caliari, o tratamento só poderá ser feito em humanos quando o entendimento sobre os mecanismos de atuação dessas células-tronco em queimaduras for dominado, garantindo a segurança da aplicação da técnica. "Como todo novo experimento, a transposição da terapia em modelos experimentais para seres humanos requer cautela", ressalva.
Ação em equipe
Tanto o linfócito TCD4 quanto o TCD8 são células de defesa do organismo. O TCD4 funciona como um organizador, reunindo amostras para apresentar aos leucócitos qual "inimigo" deve ser atacado. O TCD8 age destruindo as células infectadas ou com mutações. Em indivíduos sadios, o número de TCD4 é superior ao de TCD8. Naqueles com grandes queimaduras, a atuação dos TCD4 é mais favorável para a melhora do paciente.
Queimaduras
Causadas por agentes físicos térmicos (os mais frequentes), elétricos ou químicos, são divididas em três categorias:
Primeiro grau – é aquela superficial, que deixa a pele avermelhada, inchada e dolorida. Pode ser desencadeada até mesmo pelo Sol
Segundo grau – intermediária, provoca o aparecimento de bolhas
Terceiro grau – de grande profundidade, causa a morte do tecido
Tratamento
No primeiro estágio, podem ser administradas pomadas. No segundo, às vezes, é necessário o procedimento cirúrgico. No terceiro, como a necrose geralmente destrói a camada lesada, é necessário o enxerto com pele retirada de outras regiões do corpo
Estudo
A pesquisadora retirou células-tronco mesenquimais de medulas ósseas de camundongos. Essas células-tronco são responsáveis por gerar tecidos como cartilagem, pele e músculo para o tratamento de áreas queimadas
Aplicabilidade
Cultivadas em placas de plástico, as células-tronco são colhidas em uma seringa e aplicadas ao redor das regiões afetadas pela queimadura
Eficácia
A hipótese foi associada ao efeito das células-tronco na lesão. As feridas apresentaram uma quantidade maior de tecido de granulação – aquele tecido fininho formado em cima das feridas -, e de vasos sanguíneos na região. Ambos auxiliam na cicatrização
Benefício
Além da reconstituição do tecido, no sétimo dia de tratamento os camundongos mantiveram equilíbrio de células do sistema imunológico. São elas: TCD4 e TCD8, importantes para um bom prognóstico do paciente
Fonte: Carolina Caliari