DORMIR PARA SE MANTER VIVO - Pesquisa mostra que a insônia está associada à morte prematura e a doenças cardiovasculares
Geral
31.08.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Márcia Neri
O advogado Paulo Henrique Pinheiro*, 31 anos, não se recorda a última vez que conseguiu ter uma noite de sono tranquila e reparadora. A insônia o acompanha desde a infância. Além de sofrer para adormecer, um exame de polissonografia detectou que Paulo acorda diversas vezes durante o repouso. Quando criança, despertava cansado, irritado e não tinha concentração. Sem imaginar que o filho era insone, os pais do rapaz o julgavam preguiçoso pela manhã e hiperativo depois que o Sol se punha. "Na infância e na juventude, o cérebro está a mil por hora. O cansaço é a maior evidência das noites mal dormidas, mas os efeitos mais perversos da falta de sono vêm a longo prazo. Hoje, tenho lapsos de memória e dificuldades para me concentrar. É complicado guardar e processar informações. Em algumas situações, não consigo lembrar de fatos que ocorreram meia hora antes. Isso é um tormento na vida profissional e pessoal. Tenho que ter tudo muito bem anotado", reclama.
Estima-se que a insônia crônica afete cerca de20% da população brasileira. Estudos sugerem que dormir pouco aumenta os riscos de problemas cardiovasculares e outros distúrbios. "É um grande desafio para o insone levar uma vida saudável. Ele nem sempre consegue ter disposição para a prática de exercícios ou disciplina para se alimentar. Dormir bem, ter uma dieta saudável e fazer atividades físicas são os pilares da longevidade", garante o neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília Ricardo Teixeira. "O tempo necessário para um repouso reparador varia de indivíduo para indivíduo. Já a qualidade não é tão variável. O sono pode ser bom ou ruim. Muitos pacientes despertam tantas vezes durante a noite que não conseguem descansar e isso também é uma característica da insônia", diz.
Um estudo conduzido na Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, sugere que perder noites de sono pode significar perder dias de vida. Os resultados da pesquisa revelam que a insônia crônica parece estar associada à morte prematura. O risco foi constatado para os que não conseguem pregar os olhos e também entre aqueles que têm dificuldade de voltar a dormir, acordam várias vezes ou despertam cedo demais. "Avaliamos dados de mais de 2 mil voluntários em três questionários realizados em 1989, 1994 e 2000. Verificamos que a mortalidade foi três vezes maior entre as pessoas com insônia crônica. A associação ocorreu independentemente de outros fatores, como enfisema, bronquite, infarto, hipertensão e diabetes. Os mecanismos envolvidos nessa relação, no entanto, não estão totalmente esclarecidos", explica a pesquisadora Laurel Finn, bioestatística ligada ao trabalho americano.
*Nome fictício