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Eu sou o cérebro

Geral

20.02.2013

Rafael Duarte
DO NOVO JORNAL

Um ano e meio depois da guerra travada pela imprensa entre os principais neurocientistas com atuação no Rio Grande do Norte, o que provocou um racha no Instituto Internacional de Neurociência de Natal, o momento é de trabalho. O paulista Miguel Nicolelis e o brasiliense Sidarta Ribeiro trilham hoje caminhos opostos e se dedicam aos institutos de neurociência que dirigem seguindo cartilhas diferentes. Sidarta conta 18 meses. Esse é o tempo da reconstrução do trabalho e porque não dizer também de construção do Instituto do Cérebro. “Tivemos que começar praticamente do zero. A meta é fazer do Instituto do Cérebro um dos principais centros em neurociência do país”, conta.

O pesquisador tem os pés no chão. Para ele, a expansão do ICe – objetivo maior do projeto – só acontecerá com humildade. Para tanto, tem se empenhado em buscar no Brasil e em outros países pesquisadores com bagagem e experiência internacional. Tudo para fazer do instituto um centro de excelência em pesquisa reconhecido no mundo.

O NOVO JORNAL visitou as instalações do Instituto do Cérebro semana passada. O centro de neurociência funciona numa casa grande na avenida Nascimento de Castro, em Morro Branco. O espaço parece apertado para o tamanho e a importância das pesquisas que são feitas lá dentro. Prova disso é a única sala de aula usada pelos alunos da graduação, mestrado e doutorado instalada no meio da casa. Sempre que alguém passa, a aula da vez é atrapalhada.

Os atropelos, no entanto, estão com os dias contados. Em dois anos deve ficar pronto a sede própria do ICe. Orçada em R$ 10 milhões, o dinheiro já está empenhado na Funpec. O prédio vai funcionar no próprio campus da UFRN, ao lado do Metrópole Digital.

Apesar de o diretor geral admitir que a reestruturação ainda está no início, os números já são bem animadores. Dos 18 professores concursados, cinco são estrangeiros. A meta é chegar ainda em 2013 a 25 docentes. A estrutura física atual é composta por área administrativa, biblioteca, sala para alunos, mini-auditório, sala de professores, biotérios e laboratórios. Os biotérios de ratos, camundongos e gatos estão em funcionamento. O de macacos está em fase de implantação. Ao todo são 13 laboratórios equipados.

O corpo técnico tem 34 funcionários. Os alunos, futuros neurocientistas, são 91 no total, divididos em 34 na graduação (iniciação científica), 20 de mestrado, 30 de doutorado e 7 pós-doutorandos. Para se ter uma ideia da procura pelos serviços do ICe, 108 candidatos se inscreveram para o próximo ano no mestrado e doutorado. Os projetos de extensão também se destacam.

Questionado sobre os estudos avançados realizados no Instituto do Cérebro que devem gerar a curto prazo melhorias na saúde da população, Sidarta Ribeiro critica a imprensa por pensar a ciência de forma imediata e explica que o ICe não vê a pesquisa científica como um produto. A linha do instituto, segundo ele, é a pesquisa de base com reflexos a longo prazo.

“Nós queremos entender o mundo: como e por que funciona de tal maneira. Não vemos a ciência como um produto final. A pesquisa científica feita aqui é de base porque sem a base não é possível chegar a lugar nenhum”, comentou.

Em 2012, a pesquisa rendeu artigos em duas publicações nacionais e em 17 publicações internacionais. Cada um dos sete pesquisadores do instituto desenvolve uma linha de pesquisa. Algumas delas se encontram, como é o caso dos estudos sobre a memória.

Essa relação entre as linhas de pesquisa e o potencial do instituto foi o que cativou a neurocientista gaúcha Lia Rejane Muller Bevilaqua e o neurocientista argentino Martin Cammarota, que deixaram o Rio Grande do Sul para vir morar em Natal. Os dois são referências na área e foram as últimas aquisições do ICe. “Acompanho o professor Sidarta há muito tempo e sou entusiasta do Instituto do Cérebro. Tem um corpo de pesquisadores muito bom. Eu gosto dessa troca de experiências e aqui tem um campo vasto”, contou Bevilaqua.

Já Cammarota acredita que Natal é um dos lugares mais especiais do país para se fazer pesquisa científica porque tem apoio, além do que a própria estrutura da cidade favorece a atração de pessoas. “O Instituto do Cérebro tem um potencial enorme. Natal pode não ser uma megalópole, mas está longe de ser uma cidade sem estrutura”, comentou.

Pluralidade no convívio entre culturas diferentes
Uma das características do ICe é a pluralidade no convívio entre culturas. Pelo prédio alugado na avenida Nascimento de Castro, em Morro Branco, circulam natalenses, brasilienses, cariocas, gaúchos e vários estrangeiros. Melek Chouchane tem 25 anos de idade e é tunisiana. Ela está em Natal há dois anos, vindo da França, e faz doutorado em neurociência.

Melek é tímida e fala português sem sobressaltos. Enturmada, tem o carinho das colegas do doutorado, todas também com idade na casa dos 20 anos. A tunisiana pesquisa atualmente o transplante de células-tronco. Ela usa técnicas genéticas no estudo dos neurônios. A colega Juliana Brandão, 26 anos, doutoranda em biologia molecular, vê a pesquisa sobre as células-tronco como uma das principais no ICe. “A maioria das doenças do sistema nervoso é causado por tipos de neurônios”, afirma.

Apesar da satisfação de integrar uma equipe qualificada, as meninas reconhecem que a bolsa paga para as especializações ainda é muito aquém do trabalho. O mestrado paga R$ 1.350 enquanto a bolsa de doutorado está em R$ 2 mil. “É pouco até pelo tamanho da cobrança que temos aqui”, afirmam.

A praia do natalense Fábio Freitag, 27 anos, sempre foi a biologia. Mas é no Instituto do Cérebro que o jovem biólogo parece se realizar. Fábio é só elogios ao ICe. Aluno do mestrado, ele pesquisa atualmente sobre a atividade elétrica de neurônios no sistema visual de gatos e macacos. O estudo faz parte da área de eletrofisiologia. Ele explica que os gatos são animais especiais em termos de visão. “O gato é único. Por isso é muito utilizado quando se pesquisa sistema visual. É um animal de tratamento muito fácil, enxerga muito bem à noite”, conta o pesquisador. Na prática, a pesquisa procura interpretar o que o gato vê.

GRADUAÇÃO
Pedro Fernandes, Runa Negreiros e Marina Gurgel cursam biomedicina na UFRN. O trio tem menos de 30 anos de idade e está entre os 34 estudantes de graduação que conquistaram espaço no restrito Instituto do Cérebro. Além da aula teórica, Pedro, Runa e Marina já mergulharam no mundo da pesquisa científica. Apesar de atuarem em áreas semelhantes no laboratório de neurobiologia celular e molecular, os três enveredaram por campos diferentes.

Pedro Fernandes estuda o comportamento epilético no modelo animal. Ele acompanha a reação do cérebro durante uma convulsão. “É um estudo sobre a comunicação entre as células no cérebro epilético”, explica.

A pesquisa no laboratório de neurobiologia celular e molecular estuda ainda casos de autismo em animais. Runa Negreiros e Marina Gurgel mergulharam nessa área. O trabalho, na pesquisa básica, é acompanhar reações.

Pedro está terminando o curso no Instituto e já pensa em mestrado. Runa e Marina entraram em 2012, mas também não se veem fazendo outra coisa que não estudos neurocientíficas. A linha de pesquisa pode mudar. O campo é amplo.

Custo anual

O investimento do Instituto do Cérebro para a UFRN é de R$ 11,3 milhões por ano. O financiamento vem do governo federal, através do Ministério da Educação, Ministério da Ciência e Tecnologia, CNPQ e Capes. Já o Governo do Estado participa através da Fapern. Esse foi o valor do orçamento total de 2012. A maior parte dos recursos entrou na rubrica de transferências PJ (R$ 9,3 milhões). A folha de pagamento – pessoa jurídica e física – é de R$ 990.631,79. Os equipamentos permanentes custaram R$ 682.271,55. Foram gastos ainda R$ 12.844,87 em diárias e R$ 187.513 em mão de obra. O ICe também gastou em passagens R$ 30.068,03. O material de consumo custou R$ 68.324,06 em 2012 e o custeio da instituição ficou orçada em R$ 45.898,69.

Reprodução: Novo Jornal