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‘ME DEIXARAM NA SITUAÇÃO QUE ME ENCONTRO, COM MUTILAÇÕES’

Geral

20.09.2010

TRIBUNA DO NORTE | NATAL

Publicado no dia 19/09/10

 

Cristiana Coeli da Silveira Goldie

Hoje, 20 de setembro de 2010, completo 51 anos. Luto no CRM/RN há 04 anos, quando entrei com processo por erro médico oriundo de cirurgias. Aos 45 anos realizei cirurgia de ptose palpebral e correção de septo nasal que, mal realizadas, me deixaram na situação na qual me encontro, com mutilações: cicatrizes extensas além da dificuldade de fechar os olhos (lagoftalmo) e obstrução de septo nasal. Fui operada pelo Dr. Kléber Nobre, contra quem o CRM/RN abriu processo administrativo, por unanimidade de votos dos membros daquele conselho, em maio de 2009.

A cirurgia de ptose palpebral mutiladora me deixou com dois cortes de cerca de 8 cm, num total de 16 cm, em posição acima da sobrancelha em 2 cm. Laudos e reforços foram fornecidos por outros profissionais médicos ao CRM/RN. A operação de ptose é simples e consiste na retirada de excesso de pele da região em torno dos olhos. Já a outra intervenção, de correção de septo nasal, acompanhava-se de tomografia computadorizada, apresentada ao cirurgião,  mesmo antes do ato cirúrgico, e no seu decorrer, assim como foi anexada ao processo do CRM/RN. Ademais, cumpre lembrar que havia perícia completa e detalhada realizada por médicos do plano de saúde/Unimed reconhecendo a situação de fato.

Pelas repercussões dessa cirurgia realizada com negligência ou imprudentemente, venho adoecendo constantemente. O CRM/RN, em maio de 2009, possuía 409 processos por erro médico não solucionado. Meu processo é apenas mais um desses processos que, a despeito de entrevistas e promessas, não andou. Por três vezes compareci a audiências no Conselho/RN, atendendo às intimações com AR (aviso recebimento do Correios) e prazos estabelecidos, com minha ausência significando o arquivamento da minha demanda. A primeira entrevista consistiu apenas em tentativa de conciliação, “para não entrar com o processo”. Depois mais dois encontros que não surtiram o menor efeito. Enquanto o processo “repousa” no CRM/RN, continuo mutilada onde mulher alguma não deseja sequer uma espinha.

Meu processo tem mais de 500 páginas, provas e fundamentos substanciais, tudo documentado por laudos de outros médicos, mas o CRM/RN continua empurrando-o com a barriga, sem importar-se com as dores e as humilhações cotidianas que sofro. Dormir com o olho aberto resseca o olho além do suportável. Sinto dores. Também não consigo respirar direito, tenho de caminhar e utilizar umidificadores. Quanto à mutilação, é inacreditável que se tenha feito uma coisa dessas. Sou parada na rua por pessoas que perguntam o que me aconteceu.

O CRM/RN, depois de mais de 60 visitas minhas, do meu advogado José Augusto Amorim e do meu marido Norman Goldie diz simplesmente que o processo “vai indo, vai indo!” enquanto eu represento a dor e a mutilação. Quem sabe se a exposição pública, que me dói, por intermédio desse jornal, me dê um próximo aniversário com maior alívio, já que hoje os médicos não querem operar as cicatrizes existentes.

Fonte: TRIBUNA DO NORTE | NATAL