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MÉDICOS NÃO RETORNAM AO TRABALHO

Geral

22.09.2010

TRIBUNA DO NORTE | NATAL

Por: Ricardo Araújo

Publicado no dia 22/09/10


A classe médica está cada vez mais unida e disposta a lutar contra as ações do governo municipal. Mesmo após ser considerada ilegal pela desembargadora Maria Zeneide Barbosa, a greve que atinge os serviços médicos da rede municipal de saúde não chegará ao fim antes da audiência com os representantes da prefeitura que será hoje, às 14h, na Câmara Municipal.

A imprensa não teve acesso à reunião (solicitada pela Prefeitura), realizada ontem pela manhã na Promotoria de Justiça. Os secretários de Saúde, Thiago Trindade; do Gabinete Civil, Kalazans Bezerra, o procurador Municipal Bruno Macedo e seu adjunto, Eider Mendes, e o secretário executivo da Prefeitura, Sylvio Eugênio, apresentaram os detalhes do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) da saúde municipal às desembargadoras.

 Os veículos de imprensa não puderam realizar a cobertura da reunião a pedido das desembargadoras, conforme informação da assessoria de comunicação da Prefeitura. Além disso, a assessoria da Promotoria de Justiça informou que a greve havia acabado e os médicos voltariam ao trabalho ontem mesmo. Porém, em visita aos postos de saúde de Cidade da Esperança, Felipe Camarão e ao pronto-socorro infantil Dra. Sandra Celeste, a informação colhida foi de que o Sindicato dos Médicos (Sinmed) não iria ceder até uma resolução favorável à prefeitura e aos médicos. “Mesmo que tivesse acabado, teríamos até 72h para voltarmos ao trabalho normal”, relata uma médica que pediu sigilo sob sua identidade. O Sinmed realizou um piquete em frente ao pronto-socorro e expôs aos presentes os motivos da manifestação.

 “As informações da prefeitura são oportunistas. Eles tentam confundir a população dizendo que a greve é ilegal”, critica o presidente do Sindicato dos Médicos (Sinmed), Geraldo Ferreira. A greve foi deflagrada após o Sinmed receber a informação de que a Prefeitura não tinha condições de atender o que os médicos propuseram no documento enviado à Câmara.

 “A greve é ilegal e o município vai “arrochar”, afirma o secretário-chefe do gabinete da prefeita, Kalazans Bezerra. O município começará a cortar o ponto dos funcionários que não retornarem ao trabalho.

 O Sinmed foi comunicado oficialmente sobre a ilegalidade da greve no final da tarde de ontem. “Nosso setor jurídico analisará a viabilidade da greve a partir de agora”, finaliza Ferreira.

Unidades de saúde em Natal são o retrato do descaso

A situação dos postos de saúde em Natal é crítica. Faltam medicamentos em todos os locais visitados – Felipe Camarão, Cidade da Esperança e Dra. Sandra Celeste – os laboratórios não funcionam por falta de material e os médicos não recebem por seus plantões.

No pronto-socorro infantil Dra. Sandra Celeste, foi possível visualizar o descaso por parte do poder público. “Há mais de 24 horas estamos usando o mesmo lençol nessa maca. Não há papel descartável para trocarmos a cada novo procedimento”, aponta a médica de plantão que pediu para não ser identificada. Uma criança foi examinada e a médica suspeitou que ela tivesse pedra na vesícula. “Como posso fazer um ultrassom se aqui não existe o aparelho? A mãe terá que pagar pelo exame numa clínica”.

Em todos os postos faltam medicamentos. Na Cidade da Esperança muitos idosos reclamaram da quantidade de vezes que se deslocam de casa até o posto e nunca conseguem receber a medicação. “Falta captopril, cefalexina. Quem é doente não pode deixar de tomar remédios. Eu não tenho condições de comprar”, desabafa Marilene Alves, 49 anos. Além destes, faltam medicamentos destinados a pacientes em tratamento psiquiátrico, como o diazepam e fluoxetina.

 Além da falta de remédios, no posto de saúde de Felipe Camarão, uma jovem grávida esperou por atendimento durante cinco horas. “Não tem médico, pediatra, não tem dentista. Já era assim antes da greve, agora está pior”, relata Maria Francisca. 

No pronto-socorro Dra. Sandra Celeste, mesmo com a greve, os serviços de atendimento estavam sendo feitos normalmente. Algumas crianças com casos mais graves de gripe foram encaminhadas a outros hospitais para os procedimentos de internação. Outras, com problemas mais simples, recebiam medicamentos e eram liberadas.

“Temos dois armários com medicamentos que são doados como amostra grátis pelos laboratórios”, diz a médica plantonista. Alguns medicamentos poderiam ser coletados na farmácia do local, muitos outros estão em falta.

Semana passada, o secretário de Saúde, Thiago Trindade, informou que a situação da falta de medicamentos será regularizada com a implementação do projeto Farmácia da Gente próximo mês.

Bate-papo

Kalazans Bezerra» secretário-chefe do gabinete da prefeita Micarla de Sousa

O que foi mostrado às promotoras da saúde durante reunião na Promotoria de Justiça?

 Nós fomos fazer uma apresentação do Plano de cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) de todos os servidores da saúde, incluindo os municipalizados. Nós apresentamos o mesmo plano que há seis meses vinha sendo discutido com os sindicatos: Sinmed, Sinsenat, Sindsaúde, Sindicato dos Odontólogos e Sindas. Fechamos uma proposta e mandamos para a Câmara dentro de um prazo estabelecido e negociado com os sindicatos que foi o dia 10 de agosto. Os sindicatos apresentaram novas demandas, querendo inserir novos elementos. A gente entende que parte dessas reivindicações extras, o município não tem como atender. Prometemos fazer alguns ajustes, desde que não houvesse impacto nos valores que esse plano terá para a prefeitura.

Qual o objetivo do PCCV?

O grande benefício para o servidor depois de 20 anos é ter  um plano sólido, é ter uma carreira atrativa, é ter um plano que valorize a carreira, é ter segurança para aposentadoria. É esse o objetivo do plano que cria uma data-base, que garante discussões anuais estabelecidas. Nós entendemos que o servidor precisa ter uma segurança na carreira.

E os benefícios para os médicos?

Os médicos foram os maiores beneficiados. Eles tiveram o maior aumento já registrado em toda a história do município de Natal.

Diante de todos os benefícios desse plano, porque os médicos desencadearam essa greve?

Essa greve não tem fundamento. É uma questão política. Se a greve não tivesse sido considerada ilegal pela desembargadora Maria Zeneide Barbosa, ela só acabaria no dia 4 de outubro, depois das eleições. É pura política. Há uma pressão do sindicato. O Sr. Geraldo Ferreira abandonou a reunião que fizemos aqui e decidiu fazer a greve que é inoportuna e nem ele consegue explicar o motivo da greve. É injustificada.

Qual a posição do município caso os médicos não acabem com a greve, conforme decisão da desembargadora?

A greve é definida como ilegal e abusiva. O município vai “arrochar”, pois não admite esse tipo de tratamento com a sociedade. Vamos cortar o ponto e cobrar a multa diária do sindicato.

Fonte: TRIBUNA DO NORTE | NATAL