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MÉDICOS RECLAMAM DE INTERFERÊNCIA

Geral

27.09.2010

TRIBUNA DO NORTE | NATAL

Por: Karina Toledo

Publicado no dia 26/09/10


São Paulo – Pelo menos nove em cada dez médicos paulistas dizem sofrer interferência dos planos de saúde em sua autonomia profissional, aponta pesquisa do Datafolha feita a pedido da Associação Paulista de Medicina (APM). Entre as reclamações estão recusa de pagamento de serviços prestados e pressão das operadoras para diminuir o número de exames e o tempo de internação. Em uma escala de zero a dez, os 403 médicos entrevistados deram nota média de 4,7 para os convênios. Um dos fatores que deixou o resultado abaixo da média foi o valor do honorário médico pago pelas empresas.

Mal remunerados e ameaçados de descredenciamento pelas operadoras caso não reduzam os exames, o tempo de internação e a prescrição de procedimentos e medicamentos de alto custo, os médicos ficam impossibilitados de prestar um serviço de qualidade ao usuário dos convênios, afirma o presidente da APM, Jorge Carlos Machado Curi. “O setor de saúde suplementar está entrando em colapso. O paciente compra um plano esperando atendimento e, ou não recebe esse atendimento, ou o recebe de forma parcial”, diz.

O secretário do Conselho Federal de Medicina Desiré Callegari diz que muitos médicos são denunciados aos conselhos regionais por má prática da medicina porque não conseguem exercer sua autonomia. “Muitas vezes deixam de pedir um exame de alto custo essencial para o diagnóstico, por exemplo, porque estão reféns do sistema. Se eles se insurgem contra os planos são desligados e não têm a quem reclamar “, diz.

O cirurgião vascular Francisco Osse não faz consultas por convênio há mais de dez anos. “Os convênios não repassam os ajustes que fazem às mensalidades e exigem que o médico trabalhe sem qualidade de atendimento”, afirma. “Dizem que se não diminuir (a quantidade de procedimentos pedidos), vão excluir o médico ou a clínica do seguro.”

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é o único órgão que fiscaliza o trabalho das operadoras de saúde, mas ela tem poder apenas para interferir na relação entre as empresas e seus consumidores, explica a advogada Rosana Chiavassa. “A lei não autoriza a ANS a regular a relação dos planos com os médicos, clínicas, laboratórios e hospitais.”

Embora a agência não tenha autonomia para interferir no valor do honorário pago ao médico, continua Rosana, pode punir as operadoras que se negam a cobrir exames e procedimentos. “Mas o médico precisa ter coragem de denunciar”, diz. “O médico até poderia se negar a trabalhar nesse sistema, mas é o único sistema de saúde suplementar que existe”, diz Callegari. Para o secretário do CFM, “passou da hora” de o governo federal dar poderes à ANS para que possa regular o setor.

A Federação Nacional de Saúde Suplementar em nota, disse que “suas afiliadas não fazem restrição ao acesso a serviços – como internações e exames – desde que estejam previstos em contrato.

Ortopedistas também se queixam

São Paulo (AE) – A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) está promovendo fóruns em todas as capitais brasileiras para discutir a influência dos planos de saúde no trabalho dos ortopedistas. Os últimos encontros devem ser realizados em outubro e a iniciativa culminará com um fórum nacional para o qual a Associação Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que fiscaliza as operadoras, deverá ser convocada.

As queixas desses especialistas estão em sintonia com os resultados do estudo encomendado pela Associação Paulista de Medicina (APM), que mostrou que 90% dos médicos paulistanos dizem sofrer interferência dos planos de saúde em sua autonomia profissional.

No caso dos ortopedistas, segundo o médico Robson Azevedo, diretor da Comissão de Defesa Profissional da SBOT, essa interferência tem sido constante e traz prejuízos principalmente para os pacientes. “Estamos passando por um momento delicado quanto à nossa relação com as operadoras de saúde”, diz.  Azevedo explica que os auditores dos planos, que analisam e aprovam os pedidos dos médicos, têm cometido abusos com a intenção de tentar minimizar os gastos. “A ingerência é tanta que algumas operadoras chegam a oferecer bonificações para médicos que pedem menos exames.” 

Fonte: TRIBUNA DO NORTE | NATAL