O PERIGO DA SUPERBACTÉRIA
Geral
03.11.2010
JORNAL DO COMMERCIO PE | EDITORIAL
Na semana passada, a Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa) enviou comunicados aos hospitais das redes pública e privada, dotados de unidades de terapia intensiva (UTIs) ou que possuam comissões de controle de infecção, a fim de lembrar sobre a obrigatoriedade da notificação dos casos de KPC. Enquanto isso, a Anvisa publicou resolução que obriga às unidades de saúde a utilizarem o álcool líquido ou em gel na higienização dos médicos e funcionários. A pergunta é: se se trata de um procedimento tão simples e de baixo custo para a prevenção de infecções diversas, recomendada expressamente pela Organização Mundial de Saúde (OMS), por que ainda não era obrigatório? Pelo visto, não são apenas os hábitos dos pacientes que necessitam ser revistos.
A retenção da receita do antibiótico nas farmácias é educativa, porém a explicação oficial sobre a origem do aumento de casos de KPC não convence alguns especialistas, ainda que ao defender a tese a Anvisa se inspire na própria OMS. Para a bacteriologista Ana Paula Assef, do Laboratório de Pesquisa em Infecções Hospitalares do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, o consumo voraz de remédios deve, sim, ser contido, mas não pode ser apontado como causa do surto de KPC ou de outra superbactéria. A origem da resistência aos tratamentos estaria, na sua visão, ligada ao exagero na aplicação dos antibióticos dentro dos hospitais, e não do lado de fora.
Apesar das medidas restritivas, não há motivo para pânico. Todo cuidado é bem-vindo no ambiente de maior risco onde todo cuidado deveria ser sempre a regra, e não exceção. A KPC é perigosa nos hospitais em pacientes que já se encontram fragilizados por outras doenças, especialmente aqueles que se encontram nas UTIs. No Distrito Federal, em que o número de ocorrências já se conta às centenas, a situação de desleixo foi denunciada pela despensa de licitação para a compra de material médico, a toque de caixa, no valor de R$ 10 milhões. A origem da superbactéria nos hospitais, como sugerido pela cientista da Fiocruz, passa pela deficiência na gestão de saúde no Brasil, onde o descuido com a higiene e com as condições básicas de respeito aos pacientes abre o corpo dos internados para infecções.
Como a automedicação é considerada pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, como um problema seriíssimo gerado pelo uso abusivo e indiscriminado de remédios pela população, espera-se que as exigências para a venda de antibióticos permaneçam após o controle desta superbactéria. É importante a implantação de tal medida não apenas num momento de receio coletivo, mas principalmente nos períodos de normalidade, quando os pacientes se sentem seguros de que podem se automedicar sem consequências para a saúde. A diferença entre o remédio e o veneno pode estar somente na dose.
Fonte: JORNAL DO COMMERCIO PE | EDITORIAL