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PACIENTES COMPRAM MATERIAL BÁSICO

Geral

02.09.2010

TRIBUNA DO NORTE | NATAL

A solidariedade é a solução encontrada pelos pacientes do Hospital Walfredo Gurgel para driblar a falta de respeito do poder público. Sofrendo há vários dias com o desabastecimento que assola a rede estadual, familiares e pacientes se juntam para comprar material básico para a realização de curativos. Do contrário, permaneceriam com ferimentos  “abertos”, sob o risco de infecção hospitalar. Falta: gazes, luvas para os enfermeiros, crepom para enfaixar membros fraturados, entre outras coisas. Além disso, pacientes esperam dias no corredor por falta de vagas.

Francisco Pereira do Nascimento espera há 17 dias por uma vaga na rede conveniada para fazer uma cirurgia no tornozelo esquerdo. Ele caiu de cima do muro, quando tentava entrar em casa após ter esquecido a chave do lado de dentro. A entrada dele ao hospital foi no dia 15 de agosto. Após alguns dias de sufoco no corredor do HWG, ele finalmente foi levado para a enfermaria, mas os problemas não terminaram. Três dias depois ainda não haviam trocado o curativo do ferimento. Nesse momento, foi preciso improvisar.

Uslania Batista, esposa de Francisco, se juntou com outros acompanhantes e adquiriu quatro pacotes de crepom, gazes, luvas para os enfermeiros, entre outros materiais. Isso foi na semana passada. Na última sexta-feira, os pacientes fizeram nova cota e compraram mais material hospitalar. “O curativo já estava inflamando, há mais de três dias sem ser trocado. As enfermeiras diziam não ter material no hospital, então tivemos que comprar. E pelo visto vamos ter que comprar de novo”, diz Uslania, e recebe a confirmação silenciosa dos colegas de enfermaria. São 10 pacientes em cada sala.

O vendedor Sandro Iério, de 27 anos, teve o azar de chegar no dia seguinte à mais recente “vaquinha” para comprar luvas e gazes. Por conta disso, ele ainda tem resquícios de sangue na perna direita, inchada, onde um fixador foi colocado para deixar o osso no lugar. Um acidente de moto no último sábado é o motivo do internamento. Assim como 10 outros pacientes, de acordo com informações da Assessoria de Imprensa do Hospital Walfredo Gurgel, Sandro está na fila por uma cirurgia ortopédica nos dois hospitais conveniados à rede municipal de Saúde, Memorial e Médico-cirúrgico.

Segundo o médico intensivista Sebastião Paulino, ex-diretor do Walfredo Gurgel, a situação do abastecimento na farmácia do Hospital permanecia a mesma, até o fim da manhã de ontem, sem medicamentos, fios de sutura e materiais básicos. Funcionários do Walfredo Gurgel foram obrigados a pegar luvas emprestadas de uma ambulância do Samu para conseguir trabalhar na Unidade de Terapia Intensiva. Além disso, a superlotação da unidade fazia com que 20 pessoas aguardassem vagas para a UTI em local inapropriado, de acordo com a Unidade de Gerenciamento de Vagas.

Havia ontem 60 pacientes alojados em macas nos corredores do Hospital Walfredo Gurgel, em franca desobediência à decisão judicial do juiz da 2ª Vara da Fazenda Pública, Ibanez Monteiro,  expedida no início do ano. A superlotação é reconhecida pelo Walfredo Gurgel e pela Secretaria Estadual de Saúde, que informam estar trabalhando para resolver o problema. No caso do desabastecimento, há uma licitação em curso.

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com o Ministério Público para falar com a promotora Iara Pinheiro, mas ela respondeu, através de sua Assessoria de Imprensa, que só falará no dia 9 de setembro, após uma reunião para tratar do assunto com os diretores do Hospital Walfredo Gurgel.

Atraso na realização de exames piora situação

O retorno do atendimento nos corredores do Walfredo Gurgel foi diagnosticado pela Secretaria Estadual de Saúde em meados de julho de 2009. Entre essa data e fevereiro desse ano, uma comissão especial conseguiu controlar a superlotação do Hospital, através de um trabalho rigoroso na regulação. Contudo, o êxito durou pouco. No dia 20 de julho, a Sesap enviou ao Conselho Regional de Medicina um ofício requisitando fiscalização no Walfredo Gurgel. Nesse documento, assinado pelo secretário estadual de Saúde, George Antunes, a Sesap admitiu a volta do problema.

O motivo apontado pela Secretaria foi a permanência, por tempo superior ao necessário, dos pacientes nos leitos do Hospital. Diz um trecho do documento: “Importante mencionar que um dos fatores indicados pela referida equipe quanto ao excesso de pacientes internados no HWG foi a excessiva demora na alta dos pacientes internados nas enfermarias”. Durante uma visita ao Hospital, George Antunes encontrou o caso de uma paciente com aparente bom estado de saúde ainda internada no Hospital.

O Cremern realizou a fiscalização, segundo declarou o presidente do Conselho, Luiz Eduardo Barbalho. Dentro do Hospital, não foi encontrado nenhum deslize ético, ou seja os responsáveis pela “excessiva demora na alta de pacientes” não eram os médicos. Mas as condições de trabalho. “É uma questão administrativa, uma falha na gestão do Walfredo Gurgel”, diz Luiz Eduardo. O chefe de fiscalização, Jeancarlo Cavalcanti, complementou dizendo que o atraso na realização de exames de alta complexidade contribui com o problema.

De acordo com a chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Saúde, Romy Christine, a comissão de acompanhamento específica para a superlotação do Walfredo Gurgel voltará a trabalhar amanhã, após três meses de paralisação causada pela saída de dois servidores. Com isso, espera-se conseguir agilizar a alta dos pacientes já recuperados e diminuir a superlotação no Hospital. A direção do Walfredo Gurgel também foi procurada, mas preferiu não se pronunciar.

Falta de medicamentos tem sido constante

A falta de medicamentos no Rio Grande do Norte tem sido uma  constante. No dia 25 de agosto, a TN divulgou o sofrimento de pacientes com Alzheimer que estão sem receber os remédios Erans de 5 mg e Exelon, 1.6 mg, em falta na Central de Agentes Terapêuticos – Unicat.  A promotora de Justiça do Idoso, Iadya Gama Maio, instaurou inquérito civil para apurar a falta de medicamentos na Central há 5 meses.

Os medicamentos que estão faltando tem como princípio ativo a Donepezila e a Rivastigmina, inibidores de enzimas que atacam regiões do cérebro responsáveis por transmitir impulsos nervosos. Sem o tratamento, os pacientes apresentam uma avanço nos lapsos de memórias,  uma das características da doença, ao provocar o esquecimento da memória passada e recente.

Para a psiquiatra Euglena Lessa a falta do remédio atrapalha o tratamento, por causa da rápida evolução da doença. “Sem cura o Alzheimer tem que ser combatido com os remédios, somado a um tratamento multidisciplinar, através de uma equipe formada por diversos profissionais, desde geriatras até fisioterapeutas”.

A médica disse que a composição dos remédios de combate ao Alzheimer é diferente de acordo com o princípio ativo. “Cada um age em uma enzima específica, por isso não pode ser substituído um pelo outro”.

A promotora disse que a secretaria tinha alegado falta de recursos para aquisição desses medicamentos, além da burocracia nos processos de compra. A assessoria de comunicação da Sesap confirmou que o empenho foi realizado e que a situação será normalizada.

Fonte: TRIBUNA DO NORTE | NATAL