Pacientes recebem alta, mas ficam no Walfredo Gurgel à espera da família
Geral
01.11.2013
Quem está com a saúde debilitada precisa na maioria das vezes de um acompanhante para ajudar na recuperação. Quando a situação fica mais complicada e chega ao ponto de ser internado em um hospital, essa necessidade passa a ser indispensável. Mas nem sempre é essa a realidade que existe no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel (HMWG). Aliás, um dos principais problemas enfrentados pelo Serviço de Assistência Social do Hospital é a dificuldade para desocupar alguns leitos de pacientes que já estão de alta, mas que não tem para onde ir, ou porque foram abandonados pela família ou porque são de outros municípios e aqui não têm familiares, ou até mesmo porque os familiares se recusam em levar o paciente para casa.
O Serviço de Assistência Social do Hospital Walfredo Gurgel conta que são recorrentes casos de pacientes que recebem alta médica, mas permanecem internados na unidade hospitalar. Nesses casos, o caminho é recorrer ao Ministério Público, através da Promotoria de Defesa dos Idosos, para obrigar a família a cuidar do paciente na própria residência. Há poucos dias, um paciente saiu do hospital, depois de quase dois anos internados. Para que este cidadão, de 43 anos, pudesse finalmente deixar a unidade, com a alta médica, foi necessário o serviço de assistência social acionar a Promotoria para solucionar o problema.
O paciente José Ferreira da Silva recebeu alta médica há mais de dois meses, mas a filha questionou a decisão, por achar que o pai não tinha condições de ser cuidado em casa, já que ela avaliava o quadro clínico do pai como instável. O médico Manoel Afonso, que acompanhava o paciente, assinou a alta por avaliar que o quadro do paciente estava dentro do esperado, estável. Apesar das explicações médicas, o paciente não foi para casa, mesmo já estando inserido no Serviço de Atendimento Domiciliar do Hospital. O idoso apresenta sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e é um paciente crônico.
A família optou por pagar uma cuidadora e manter o paciente internado no terceiro andar do Hospital Walfredo Gurgel. Lúcia de Fátima cuida de José Ferreira há dois meses, quando o paciente já estava de alta médica. “Quando o recebi ele já estava liberado pelo médico e a família perguntou se eu poderia cuidar dele em casa e eu disse que sim. Mas desde então não falaram de quando o levariam”. Hoje, Lúcia cuida de José Ferreira durante o dia, pois a noite é outra pessoa que fica responsável por ele. “Nos últimos dias apresentou uma piora, com disenteria, febre e precisou ir para o oxigênio”, afirmou.
Uma história de abandono comove, diariamente, todos que passam pela enfermaria do terceiro andar do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. Há mais de três meses, o leito 324 é a residência da paciente Célia Cavalcante, de aproximadamente 35 anos. Ela já passou por quase todos os setores do hospital. Inicialmente ela apresentava um quadro de pneumonia, mas já havia feito uma traqueostomia. Hoje, Célia passa os dias sozinha, sendo cuidada apenas pela equipe médica e de enfermagem do Hospital, além dos acompanhantes dos pacientes dos leitos vizinhos que prestam alguma assistência. Nos últimos meses, nenhuma pessoa foi visitar a paciente, que não fala, não anda, é totalmente dependente, mas tem preservado as faculdades cognitivas.
A técnica de enfermagem Maélia Felix acompanha a paciente desde que ela deu entrada no hospital e conta que ela foi abandonada pela família. “Ela não tem ninguém. A família dela hoje é o Walfredo Gurgel. Só a gente e Deus é por ela e mais ninguém”, afirmou a técnica de enfermagem. A profissional conta que Célia precisa de doações, como fraldas descartáveis e material de higiene pessoal. “Como ninguém vem visitá-la, somos nós que temos que providenciar todo o material que ela precisa. Ela é altamente dependente, mas abandonada pela família”, disse. Há informação de que há mais de cinco anos que Célia Cavalcante é atendida pelo Hospital Walfredo Gurgel, entre idas e vindas.
Reprodução: Jornal de Hoje