PACIENTES SAEM EM BUSCA DE ATENDIMENTO MÉDICO
Geral
15.09.2010
TRIBUNA DO NORTE | NATAL
Publicado no dia 14/09/10
Com um furúnculo no joelho, o auxiliar de serviços gerais José Cipriano da Silva fez uma peregrinação por várias unidades de saúde de Natal até conseguir atendimento. Primeiro, procurou o posto de Nova Descoberta, onde mora. Encontrou as portas fechadas devido à greve dos médicos, iniciada no dia 5 de setembro. Dirigiu-se à Cidade Satélite e a situação era a mesma. Tentou o Hospital dos Pescadores na noite da segunda, e voltou para casa por causa do grande movimento. Retornou ao local ontem pela manhã e entrou na fila. O caso de Cipriano ilustra a realidade enfrentada no hospital, situado nas Rocas, que desde o começo da greve já registra crescimento de 40% no número de pacientes atendidos.
A Prefeitura solicitou a decretação da ilegalidade da greve, mas até o final da tarde de ontem, o pedido ainda não tinha sido julgado.
“É a velha história: a saúde vai de mal a pior. Tem muita demagogia e propaganda enganosa. Tive que ir em dois postos de saúde e vir ao hospital dos Pescadores duas vezes para ser atendido”, queixa-se José Cipriano. Ele precisou passar meia hora dentro de um ônibus até chegar às Rocas e entrar na fila formada na recepção. “O furúnculo no meu joelho está incomodando demais”, reclama. O aposentado Antônio Moreira, que mora em Dix-Sept Rosado, procurou o posto de Saúde da Cidade da Esperança para tomar uma injeção de bezetacil, sem sucesso. “Eles disseram que não tinha médico e eu tive que me deslocar até aqui na segunda de noite. Tinha mais de 20 pessoas na minha frente e eu voltei. Vim de novo na manhã da terça, cheguei às 8h40 e às 10h15 ainda tem mais de dez pessoas na minha frente. É preciso ter paciência”.
Entre as pessoas que esperavam na fila, as queixas eram unânimes. A doméstica Maria Lúcia da Silva também procurou os postos da Cidade Satélite, Cidade da Esperança e Felipe Camarão, onde mora. “Todos estavam fechados devido à greve e os funcionários me mandaram vir para o Hospital dos Pescadores. Peguei um ônibus e demorei mais de uma hora para chegar. Se pudesse ir aos postos de saúde, seria bem pertinho de casa”, lamentava, reclamando de cansaço no coração e uma perna inchada. “Não durmo há três noites. É difícil me deslocar até às Rocas, mas morrer em casa é que eu não vou”, conformava-se. Por sua vez, a estudante Juliana Salviano levou a mãe, a aposentada Eva Monteiro, para o posto das Quintas, para se tratar de dores nos ossos. “Eles deveriam atender lá, mas nos mandaram para o Hospital dos Pescadores”, reclamava a filha.
A administradora do Hospital das Rocas, Ana Celli da Costa Nunes Gomes, estima em 40% o aumento no número de atendimentos após o início da greve dos médicos da Prefeitura de Natal. “Nossa especialidade é urgência e emergência, mas estamos tendo demanda bem maior de atendimento ambulatorial. Com a greve, a situação piorou muito. Nossa escala de médicos está completa, com seis terceirizados nos plantões e quatro da clínica médica que são do quadro, mas não entraram em greve. A deficiência maior é de enfermeiros e técnicos de enfermagem”, constata. Segundo informações da direção, o hospital tem 87 enfermeiros e técnicos, faltando 12 profissionais para se chegar ao número ideal.
O secretário municipal de Saúde, Thiago Trindade, diz que não há uma orientação específica de encaminhar os pacientes dos postos para o Hospital dos Pescadores. “O aumento no fluxo é uma migração natural, pois as pessoas procuram as unidades onde sabem que vão ser atendidas”, considera. Ele se diz otimista quanto aos rumos da greve, pois a Prefeitura teria feito propostas concretas aos médicos, e espera um desfecho positivo para os próximos dias.
Servidores do município ameaçam parar sexta
Além dos médicos, os servidores da saúde municipal de Natal prometem entrar em greve a partir da próxima sexta, de acordo com assembleia realizada na manhã de ontem, no auditório do Sindsaúde. Eles reivindicam a correção do que consideram “19 pontos com falhas” no Projeto de Lei do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV), enviado à Câmara pelo executivo municipal. A primeira atividade da paralisação será um Ato Público, às 9h da sexta, em frente à prefeitura.
Entre os pontos questionados, os servidores reivindicam o enquadramento dos auxiliares de enfermagem, que hoje são de nível fundamental na categoria de nível médio. Querem a definição da situação dos funcionários municipalizados (cedidos por outros órgãos) sobre a continuidade do recebimento de suas gratificações, pois o PCCV só abrange os concursados. Pedem que o adicional de insalubridade incida percentualmente sobre os vencimentos, em vez do valor fixo proposto pela administração.
A pauta de reivindicações inclui também a manutenção de gratificações e evitar que elas sejam transformadas em abonos; mudanças nos critérios de contagem no tempo para evolução na carreira, incluindo afastamento por licença-saúde e atuação em entidade sindical como efetivo exercício; e Adicional de Periculosidade de 30% sobre o vencimento-base, entre outros pontos.
Centro cirúrgico permanece desativado na zona Norte
Mesmo já tendo sido palco para duas inaugurações, realizadas pela atual prefeita, Micarla de Sousa, e pelo antecessor, Carlos Eduardo Alves, a Maternidade Leide Moraes, na Zona Norte, continua com o Centro Cirúrgico sem funcionar. Dois anos após a estrutura física da unidade ter sido entregue, são feitos apenas partos normais e curetagens. Cesarianas e cirurgias eletivas nunca foram feitas, devido à falta de estrutura e equipamentos adequados. A promessa é que o Centro Cirúrgico seja aberto até o final do mês.
As placas não deixam dúvidas: em dezembro de 2008, último mês de sua administração, o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves inaugurou o prédio. E em março do ano seguinte, a prefeita Micarla de Sousa fez outra festa, que marcou o início dos partos normais e dos procedimentos de curetagem. “Havia uma série de condições inadequadas ao funcionamento do centro cirúrgico. Portas estreitas, iluminação insuficiente, janelas que permitiam a entrada de insetos. Os problemas foram corrigidos e talvez a inauguração aconteça no próximo dia 30”, diz o novo diretor-geral, Yuri Marques, que assumiu o cargo há poucos dias.
Segundo ele, quando o Centro Cirúrgico for aberto, começarão a ser feitas as cesarianas e cirurgias eletivas de contracepção (laqueaduras). “Já temos os equipamentos necessários, faltando apenas alguns insumos. A quantidade de leitos vai aumentar de 23 para 42 e haverá três novas enfermarias”, informa.
Walfredo Gurgel
A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) está reativando leitos do anexo do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel (HWG). O espaço se localiza no Hospital Colônia Dr. João Machado (HJM), tem 25 leitos disponíveis e há a previsão de aumentar a quantidade. O objetivo é transferir, em definitivo, os pacientes e construir uma Unidade de Terapia Intensiva no HMWG.
Anestesistas
A administradora da Maternidade das Quintas, a pedagoga Francinete de Medeiros Pinheiro, disse ontem que não tinha como responder sobre a decisão da prefeitura de contratar anestesistas terceirizados para atuar naquela unidade mista.
Mas, ela confirmou que a escala médica da unidade está completa, inclusive com os 17 profissionais associados à Coooperativa dos Anestesiologistas (Coopanest). “Nós temos um anestesista de dia e outro à noite, que atuam por regime de plantão”, disse ela, além de três obstetras por dia, dois neonatologistas. “A escala está completa, não existe nenhuma preocupação com relação a isso”.
Segundo ela, o Centro Cirúrgico que fora fechado há oito anos já está, a partir de hoje, em condições de funcionar depois de ter passado por adequações. Francinete Pinheiro informou que a Maternidade das Quintas, situada na rua dos Paiatis, faz em média 200 partos por mês e de agora em diante, poderá realizar cirurgias cesáreas para as mulheres que não podem ter parto natural. Ela explicou ainda que na unidade das Quintas não se faz curetagem, porque lá só existe uma sala no centro cirúrgico, mas lembrou que esse procedimento já é feito na Maternidade Leide Morais.
A administradora da Maternidade disse que o centro cirúrgico conta com um centro de recuperação, com dois leitos, e uma enfermaria com seis leitos. “Nós temos espaço agora para atender a demanda”.