PERIGO EM CONSTANTE MUTAÇÃO - Enquanto a medicina descobre novos antibióticos, as super-bactérias se fortalecem e encontram brechas
Geral
08.11.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Márcia Neri / Sílvia Pacheco
Publicado no dia 08/11/10
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08.11.2010
DIÁRIO DE NATAL | SAÚDE
Por: Márcia Neri / Sílvia Pacheco
Publicado no dia 08/11/10
O grau de resistência de bactérias é variável de região para região do planeta, porque depende de uma série de fatores. A autodefesa, aliás, é um processo natural da espécie. A super-resistência é que é uma consequência do uso indiscriminado de antibióticos. Além da KPC, cinco tipos de bactérias super-resistentes desafiam a infectologia atualmente. Diante da Pseudonoma aeruginosa, da Acinetobacter baumannii, da Enterococo resistente à vancomicina (VRE, sigla em inglês), da Escherichia coli e da Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), muitas vezes, os especialistas ficam de mãos atadas. Elas integram o grupo mais comum de micróbios causadores de infecção hospitalar em todo o planeta.
Imagine uma terra plana, produtiva e desocupada. Em pouco tempo, aparecerá alguém que se interesse por cultivá-la. No organismo dos seres humanos, ocorre o mesmo. A pele, a boca, o esôfago e o intestino abrigam uma flora bacteriana imensa. São bactérias que todos têm no corpo. A maioria delas não se revela maléfica à saúde e até serve para proteção dos inimigos invisíveis. Quando, porém, antibióticos e quimioterápicos são prescritos, essa flora "do bem" desaparece e ressurge um terreno fértil e desabitado, agora favorável à colonização de micro-organismos que mutaram e se tornaram resistentes aos medicamentos que o paciente está ou esteve tomando. "No ambiente hospitalar, os pacientes ficam debilitados por conta do estresse metabólico, do uso de drogas imunossupressoras e de procedimentos invasivos. Indivíduos com sondas e cateteres são um prato cheio para a colonização e, eventualmente, infecção por essas bactérias mais resistentes", explica Luís Gustavo de Oliveira Cardoso, infectologista e coordenador da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Relatos médicos indicam que as primeiras infecções hospitalares por cepas multiresistentes da P. aeruginosa surgiram em 1991. No Brasil, segundo Gales, essa bactéria é considerada multirresistente na maioria dos hospitais. "É um patógeno que não responde a três classes de antibióticos diferentes. Tudo leva a crer, porém, que ele conseguirádriblar outros antibacterianos, inclusive os mais novos", acrescenta a infectologista.
Há alguns anos a Staphylococos aureus resistente à meticilina (MRSA) é uma das bactérias multirresistentes que mais preocupam os médicos, devido à rapidez de suas mutações e à evolução de seus mecanismos de defesa. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), em 1990, a MRSA se apresentava parcialmente resistente à vancomicina, uma droga de última instância utilizada no tratamento de diversas infecções resistentes. Entre 2002 e 2004, foram notificados dois casos de resistência total. A bactéria é encontrada na pele e no nariz. A principal causa de infecção pela MRSA está associada ao uso do cateter venoso central. "Geralmente, ela entra por um cateter que está ligado à veia central do paciente, se não houver limpeza e troca adequadas do material", diz Gales
Já as Enterococos resistentes à vancomicina (VRE) habitam o trato gastrointestinal e genital feminino. Reconhecidas como uma importante causa de infecção hospitalar, são responsáveis por complicações urinárias e transmitidas por meio dos profissionais de saúde ou de equipamentos e artigos médicos (termômetros, estetoscópios) e superfícies (mesa, maçaneta, telefone, bandeja de medicação). Além de desenvolver reação aos agentes antimicrobianos utilizados no tratamento de infecções enterocócicas, as bactérias desse grupo transferem essa resistência a outras espécies. No Brasil, o primeiro VRE foi identificado em 1996, em um hospital de Curitiba. A partir de então, relatos de isolamento de VRE são descritos em diversos hospitais brasileiros.
Médicos correm contra o tempo na tentativa de salvar os pacientes. Hospitais lotados, poucos profissionais para atender dezenas de doentes e o uso indiscriminado de antibióticos colaboram para que as bactérias estejam emvantagem nessa competição.