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Por que os medicamentos custam tanto?

Geral

17.01.2015

A Eli Lilly cobra mais de US$ 13 mil por mês pelo Cyramza, o mais recente medicamento para tratamento de câncer de estômago. O remédio mais recente para câncer de pulmão, o Zykadia da Novartis, custa quase US$ 14 mil por mês. O Blincyto da Amgen, para leucemia, custará US$ 64 mil por mês.

Por quê? As companhias farmacêuticas atribuem os altos preços à complexidade da biologia, as regulações do governo e expectativas dos acionistas de altas margens de lucro. Em outras palavras, eles dizem, eles estão de mãos atadas. Mas há uma explicação mais simples.

As empresas estão tirando proveito de uma mistura de leis, que forçam as seguradoras a basicamente darem cobertura a todos os medicamentos caros, e uma filosofia que exige que todo novo produto de saúde esteja disponível para todos, independente de quão pouco ajude ou quanto custe. Qualquer coisa fora isso estaríamos falando em painéis decidindo quem vive e quem morre.

São muitos os exemplos de empresas explorando essas políticas. Um artigo no “The New England Journal of Medicine” no ano passado tratava de como as empresas passaram a comprar os direitos de velhos medicamentos genéricos baratos, barrar concorrentes e elevar os preços. Por exemplo, o albendazol, um medicamento para certos tipos de infecção parasitária, foi aprovado em 1996. Em 2010, seu preço médio no atacado era de US$ 5,92 por dia. Em 2013, tinha subido para US$ 119,58.

A Novartis, a empresa que produz o medicamento para leucemia Gleevac, continua aumentando o preço da droga, apesar dela já ter proporcionado bilhões em lucros para a empresa. Em 2001, a Novartis cobrava US$ 4.540, em dólares de 2014, por um mês de tratamento; agora, ela cobra US$ 8.488.

Em sua política de preços, a Novartis apenas está acompanhando outras empresas, à medida que cobram mais e mais por seus medicamentos. Elas sabem que não podemos dizer não.

Mas e se não obrigássemos as seguradoras a cobrirem todos os medicamentos? Nós podemos ver a resposta na Europa. Muitos países europeus dizem não a um punhado de medicamentos todo ano, geralmente aqueles que são ineficazes e muito caros. Porque podem dizer não, o sim não é uma garantia. Logo, as empresas precisam oferecer seus medicamentos a preços que os tornem atraentes para os sistemas de saúde. Um levantamento recente das políticas de drogas para câncer revelou que não é preciso dizer não com muita frequência para obter descontos para dizer sim. Das 29 principais drogas para câncer incluídas no estudo e que estão disponíveis nos Estados Unidos, cerca de 97% e 86% também estão disponíveis na Alemanha e na França, respectivamente.

Em consequência da posição adotada por esses países, os preços na Europa para medicamentos prescritos são 50% mais baixos do que os pagos pelos americanos, segundo um estudo McKinsey de 2008. O Gleevac custa US$ 4.500 por mês na Alemanha atualmente, e US$ 3.300 por mês na França, menos do que os americanos pagavam em 2001.

Dizer não, ou apenas a ameaça, também funciona para baixar preços nos Estados Unidos. Mas é raro. Em 2012, meu hospital disse que não daríamos a droga Zaltrap para câncer de cólon aos nossos pacientes, porque custava o dobro de outra droga (Avastin da Genentech) que era tão boa quanto. Quando nos recusamos a usá-la, a empresa percebeu que outros hospitais de câncer e médicos poderiam fazer o mesmo, e reduziu seu preço pela metade.

Mais recentemente, a Express Scripts, uma empresa que administra os benefícios farmacêuticos, mostrou que a aprovação não era garantida. Assim, ela conseguiu colocar dois fabricantes de tratamento para hepatite C um contra o outro. A Express Scripts disse sim ao Viekira Pak da AbbVie (para o subtipo mais comum, o genótipo 1) e não ao Sovaldi e Harvoni da Gilead. Outro programa de benefício farmacêutico, o CVS Caremark, fez o inverso, optando pela Gilead e descartando a AbbVie.

De qualquer modo, a lição é que a Express Scripts, assim que mostrou que podia dizer não, conseguiu que a AbbVie desse um desconto para seu produto. Ela não diz quanto, mas Steve Miller, um alto executivo, disse que “reduziu significativamente a diferença entre o preço cobrado nos Estados Unidos e na Europa Ocidental”. Soa como o tipo de programa que precisamos.

É possível temer que os pacientes sejam prejudicados por essas ações. Mas nós rejeitamos o Zaltrap cientes de que não era melhor do que a alternativa. A Express Scripts e CVS Caremark colocaram as duas companhias farmacêuticas um contra a outra porque ambas produziam tratamentos eficazes.

O setor pode argumentar que os gastos em medicamentos representam apenas 10% de todos os gastos em saúde, mas esses 10% equivalem a cerca de US$ 300 bilhões por ano. Mais importante, as despesas com medicamentos caros são repassadas aos pacientes. O medicamento Cyramza da Lilly custará em média ao paciente do Medicare (o seguro-saúde público americano para idosos e inválidos) US$ 2.600 por mês, sem seguro complementar. Isso representa mais do que a maioria das pessoas em idade do Medicare ganha bruto por mês. Na verdade, os preços altos são repassados para todos nós, seja por meio de despesas individuais ou pelos planos de saúde.

Isso nos deixa com duas opções. Nós podemos liberar as seguradoras e programas de governo da obrigatoriedade de inclusão de todas as drogas caras em seus planos, explicando ao público que algumas drogas não são eficazes o bastante para justificar seu preço. Se fizermos isso, nós podemos dizer com confiança que os fabricantes reduzirão seus preços para assegurar a capacidade de vender seus produtos. Ou podemos pegar carona no bom senso de países mais ousados, e exigir que os autores de políticas estabeleçam os preços dos medicamentos nos Estados Unidos iguais aos da Europa Ocidental. Qualquer abordagem seria vastamente superior à situação que temos agora.

*Peter B. Bach é médico e diretor do Centro para Políticas de Saúde e Resultados do Memorial Sloan Kettering Cancer Center.

Reprodução: UOL