Profissionais suspendem internamentos de gestantes na Maternidade Leide Morais
Geral
20.11.2012
Na porta de entrada do Hospital Municipal da Mulher, também conhecido como Maternidade Professor Leide Morais, na zona Norte de Natal, uma nota pública afixada já demonstra que algo está errado. Desde o dia 12 de novembro, a unidade suspendeu os internamentos às gestantes, porém, mesmo sem condições, os profissionais estão garantindo apenas o atendimento de urgência. A falta de condições mínimas de trabalho somada à deficiência no cumprimento das escalas médicas, em especial dos pediatras, tem feito, as mulheres que procuram a Maternidade serem transferidas para o Hospital Santa Catarina.
Na manhã desta segunda-feira (19), dos 22 leitos que a Maternidade dispõe apenas cinco estavam ocupados. Enquanto a Maternidade Leide Morais dispõe de 17 leitos vazios, a Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC) sofre com a superlotação, tendo que improvisar leitos nos corredores. Hoje pela manhã, a reportagem d’O Jornal de Hoje esteve na unidade para verificar os problemas, que foram confirmados pelos profissionais, que preferiram não se identificar por temer represálias. “Os profissionais estão todos aqui, só não temos condições de trabalho”, desabafou uma enfermeira que pediu para não ser identificada.
No início da manhã, durante pouco mais de uma hora, apenas uma paciente procurou atendimento na Maternidade e a recepção permaneceu vazia por grande parte do tempo. Adriele do Nascimento Lira, de 23 anos, chegou em trabalho de parto, na Maternidade. Ela foi atendida pela obstetra de plantão que informou que o parto não poderia ser feito no Leide Morais e que ela seria transferida para o Hospital Santa Catarina. Com a informação, o tormento de Adriele começou.
No oitavo mês de gestação e grávida do terceiro filho, Adriele chegou à Maternidade com 6,5 centímetros de dilatação e sentido fortes dores. Como a Maternidade não dispõe mais de ambulância, pois o contrato não foi renovado e o carro social da unidade estava na Secretaria, a equipe médica solicitou uma ambulância do Samu Natal para fazer a transferência da paciente para o Hospital Santa Catarina. Por mais de 40 minutos, Adriele esperou a ambulância e até a saída da equipe de reportagem do local ela ainda não havia sido transferida.
“Apenas informaram que não estavam realizando os partos e que ela teria que ser transferida. Fomos bem recebidas, mas o atendimento deveria ter sido completo, fazendo o procedimento correto. Ela chegou sentindo fortes dores e foi colocada apenas numa sala. É uma vergonha esse descaso todo”, desabafou a vizinha de Adriele, que a acompanhou, Maria Josânia.
Segundo a nota pública assinada pelos servidores da Maternidade Leide Morais, o caos instalado não se dá apenas pelas escalas incompletas, pela descontinuidade do atendimento, pela falta de pagamento às cooperativas médicas, mas sim pelos constantes problemas que se agravam a cada dia. Com o apagão do dia 25 de outubro, a equipe médica tomou conhecimento de que o gerador da unidade estava quebrado. Segundo a administração do Hospital vários comunicados solicitando conserto foram encaminhados à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) sem que nenhuma providência tenha sido tomada. O não funcionamento do gerador colocou em risco a assistência de um recém-nascido em sofrimento fetal, uma usuária com pré-eclampsia e demais pacientes em trabalho de parto naquele plantão, que felizmente não terminou de forma trágica.
No último dia 10, um incêndio na autoclave da Central de Material denunciou que os extintores estavam vencidos. O Corpo dos Bombeiros interditou a sala e orientou a religar os aparelhos apenas após laudo de um eletricista. De acordo com o assistente administrativo João Santos, a autoclave foi consertada e a esterilização de matérias foi normalizada.
No entanto, a lista de problemas que os profissionais que trabalham diariamente na Maternidade Leide Morais é bem mais extensa. Além do conserto do gerador, o abastecimento da farmácia com faltas constantes de insumos, desde sondas, luvas, bolsas coletoras de urina, medicamentos anestésicos, agulha de punção lombar, clamp umbilical e falta de água mineral para preparo das dietas líquidas e complemento alimentar dos recém-nascidos. Neste caso, o último abastecimento foi realizado no dia 22 de outubro e, desde então, os funcionários tem comprado água para manter o internamento dos pacientes.
Além disso, os profissionais pedem o restabelecimento do serviço de ambulância móvel 24 horas e reclamam da segurança insuficiente, uma vez que os funcionários têm sido assaltados no estacionamento da Maternidade, além do furto de veículos. O prédio, apesar de novo, sofre com a deterioração da estrutura física pela falta de manutenção que se encontra com problemas de infiltração, mofo, piso danificado, com áreas sem continuidade e com regiões de acúmulo de sujeira e líquidos, além do desabamento de gessos em várias suítes, forçando a interdição delas e gerando redução na capacidade de atendimento comprometendo, assim, a saúde dos profissionais e usuárias.
“Essa situação, na verdade, denuncia a máxima da incompetência e irresponsabilidade com que a gestão atual conduz o Sistema Único de Saúde na nossa cidade, de forma a atender interesses privados de forma patrimonialista, que hoje demonstram a fragilidade de um modelo baseado em terceirização dos serviços e não valorização do funcionalismo público. O comprometimento da qualidade do atendimento nos serviços prestados pela Maternidade Leide Morais se deve a constantes descontinuidades de processos de gestão e abastecimento”, diz a nota assinada pelos servidores.
Maternidade das Quintas
A Maternidade das Quintas, que realiza partos de baixa e média complexidade, normalizou o atendimento. Na semana passada, a unidade deixou de funcionar por um dia, pois a empresa de gás não entregou oxigênio, impossibilitando a internação de novas pacientes. Na manhã de hoje, de acordo com a administradora da Maternidade, Alessandra Dantas, a situação já estava regularizada e apesar da irregularidade no abastecimento de insumos, a unidade mantém a média de sete partos diários. Por mês, são realizados mais de 220 partos.
A Maternidade dispõe de 30 leitos, sendo que uma enfermaria, com seis leitos, está desativada desde o início do ano, por problemas estruturais. Dos 24 leitos, seis são da sala de pré-parto, que comumente são ocupadas pacientes pós-parto. Na última sexta-feira (16) havia 28 pacientes internadas, quatro a mais que a capacidade máxima. Hoje pela manhã, a situação estava mais tranqüila, pois dos 24 leitos, apenas 21 estavam ocupados.
Fonte: Jornal de Hoje