3201 5491

FALE COM A GENTE

ÁREA DO COOPERADO

Sabia que uma em cada 200 pessoas tem colesterol alto por herança genética?

Geral

22.09.2015

Ter as taxas de colesterol nas alturas pode não estar relacionado apenas com a falta de hábitos de vida saudáveis. Mesmo “andando na linha”, uma parcela da população tem níveis altos de LDL, o colesterol ruim, no sangue e está exposta a sofrer problemas cardiovasculares precocemente, como acidente vascular cerebral (AVC) e infarto. Isso porque ter o “colesterol alto”, como é dito popularmente, também pode indicar a presença de uma doença genética: a hipercolesterolemia familiar – ou HF. E ela não é rara.

Estima-se que 1 pessoa entre 200 e 500 pessoas sofram da doença – segundo estudo publicado em 2013 no European Heart Journal e relatório publicado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) em 1998. Nesse cenário, entre 14 a 34 milhões de pessoas teriam a doença no mundo, mas menos de 1% desses casos são diagnosticados.

Não há estudos no Brasil sobre o assunto, mas, baseados na medição feita em outros países, especialistas afirmam que a prevalência da doença aqui é de uma pessoa a cada 200 habitantes, a mesma proporção da epilepsia.

A filha da austríaca Gabriele Hanauer-Mader, hoje presidente da Organização de Pacientes Austríacos com HF, tinha dois anos quando foi diagnosticada com a enfermidade. Gabriele conta que resolveu levar a criança ao pediatra logo após o marido morrer de um ataque cardíaco aos 33 anos. “Eu não sabia nada sobre a doença, mas tive um ‘feeling’ depois da morte do meu marido e resolvi levar a minha filha ao médico”, conta. Ela disse ter ficado em choque ao ver que a taxa de LDL estava acima de 400 mg/dl de sangue. Nessa faixa etária, a criança deve ter um nível de cerca de 50 mg/dl de LDL no sangue.

O diagnóstico veio em seguida. Ligando os pontos, o profissional verificou que a menina sofria da doença genética que teria sido a causa do ataque cardíaco sofrido pelo pai dela. “Como descobrimos cedo, começamos um tratamento com uso de estatinas (tipo de medicamento usado para controlar os níveis de colesterol) e hoje, com 15 anos, ela é uma menina saudável, que adora praticar esportes e temos 100% de certeza de que ela não vai morrer de um infarto”, diz Gabriele.

Diagnóstico precoce é sinônimo de longevidade
O problema é que, na maioria das vezes, não se descobre a doença precocemente, então, o colesterol (um tipo de gordura produzido em nosso organismo) vai se depositando nas artérias e quando menos se espera a doença cardiovascular se manifesta. “A primeira manifestação já é o infarto. O HF é uma doença silenciosa que mata e bastante precocemente”, afirma o cardiologista Marcelo Betolani, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Por isso, segundo ele, é tão importante que o médico faça o chamado rastreamento em cascata a partir do paciente com hipercolesterolomia familiar, ou seja, investigue todos os parentes de primeiro grau, principalmente porque crianças e adolescentes não costumam ter as taxas de colesterol controladas.

Outro sinal de HF pode estar na formação de xantomas (depósitos de gordura na pele na região dos cotovelos, joelhos e tendões) e xantelasmas (bolsas amareladas e salientes nas pálpebras, que funcionam como depósitos de colesterol). “Por isso, durante a consulta, o médico não deve apenas avaliar os níveis de colesterol. Ele precisa estar atento a possíveis xantomas e xantelasmas, ao histórico familiar, além dos hábitos de vida do paciente. É através dessas informações que ele vai saber se se trata de um paciente com essa alteração genética, pois o diagnóstico é clínico”, conta cardiologista Marcelo Lima, diretor médico do laboratório Amgen.

Segundo o presidente do departamento de aterosclerose da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia), José Rocha Farias, também professor titular da PUC-PR, apesar de esse diagnóstico ser clínico, muitos médicos não estão por dentro das diretrizes estabelecidas sobre a doença – no Brasil, a SBC publicou um documento informando aos médicos sobre a condição em 2012.

“Os pacientes são tratados, porque toda pessoa que chega a um consultório com o LDL muito alto precisa ser tratada. Mas, o médico não reconhece que aquele colesterol na verdade é um problema que vem da família e perde a grande oportunidade de rastrear familiares e evitar que eles também tenham problemas cardiovasculares precocemente”, diz.

Como é a alteração genética
A doença é causada por uma alteração no gene localizado no cromossomo 19. Se um pai ou uma mãe tem essa mutação, existe 50% de chance de passar o “defeito” para os filhos. “Nós temos a metade dos genes do nosso pai e a outra metade da nossa mãe. Se a pessoa der o azar de ter herdado essa mutação dos dois genitores, ela tem uma doença chamada HF homozigoto. Nesses casos, a pessoa vive, em geral, até os 20 anos de idade e tem um LDL que pode atingir 1.500 mg/dl de sangue. A partir dos 10 anos de idade já tem a necessidade de fazer cirurgias de revascularização e até os 20 pode morrer de um AVC ou um infarto”, conta o professor do departamento de cardiologia da Unicamp, André Sposito, que há 20 anos estuda a doença.

Ele explica, no entanto, que a forma homozigótica da doença é bastante rara, atingindo 1 em cada 1 milhão de pessoas. “A forma mais comum é a heterozigótica, quando um dois genitores passa a alteração para o filho”, conta.

Reprodução: UOL