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Síndrome de Down: o desafio da inclusão e a quebra do preconceito

Geral

23.03.2015

“Meu sonho é entrar no Frasqueirão e assistir a uma partida de futebol entre o ABC (O mais querido) e o Alecrim”. A afirmação é do jovem Alisson Dantas de Oliveira, 20 anos, estudante do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Anísio Teixeira, aluno do curso de Panificação do SENAI, apaixonado por futebol, capoeira e natação, que sonha em ser professor de Educação Física, fã da banda Grafith e tem Síndrome de Down. Alisson é um dos cerca de 300 mil brasileiros com Síndrome de Down – segundo dados do no Brasil que lutam por inclusão social e respeito.

Alisson sempre estudou em escola regular, desde o ensino infantil até o momento na Escola Anísio Teixeira. Em alguns momentos, por falta de informação e preconceitos, ele sofreu (e ainda sofre) bullying. “Mas eu tiro isso de letra. Incomoda, mas eu sou mais do que isso”, afirma Alisson. Há alguns meses Alisson está fazendo um curso de Panificação no SENAI, onde, no segundo semestre, irá participar da etapa estadual das Olimpíadas do Conhecimento. Se ganhar, ele vai representar o RN na competição nacional em 2016. Para isso, ele tem se dedicado bastante e caprichado nos pães francês, caseiro e Recife.

Na escola, Português é a sua disciplina preferida, principalmente quando a professora manda ele ler alguma atividade em sala de aula. Já em casa ele não gosta muito de leitura. A diversão, em casa com os irmãos mais novos, é jogar videogame e assistir jogos de futebol – ele é flamenguista e abecedista. Na área musical, Grafith é a sua banda preferida. Ele ainda arrisca cantar um trecho de sua música preferida. “O barrão chegou e a galera sai do chão”. Seu maior sonho, além de assistir a um jogo de futebol e se tornar professor de educação física, é dar orgulho a família. “Eu sou uma pessoa calma e tranquila”.

A pedagoga Rosa Maria de Oliveira conta que soube que o filho tinha Síndrome de Down quando o menino tinha cinco anos de idade. Até então, ela não queria acreditar que “tivesse algo diferente” com o filho. Alisson foi o primeiro de cinco filhos de Rosa. Quando ele nasceu, ela tinha 16. “Era muito nova e não tinha muito conhecimento sobre o assunto. O choque foi grande porque não sabia o que isso significava. Foi muito difícil, passei por momentos muitos complicados. Tudo começou quando começamos a observar dificuldades na fala, na locomoção, no raciocínio. Mas achava que isso era só coisa da nossa cabeça”, conta a mãe. “Hoje tenho um orgulho imenso do meu filho e a inclusão está no meu sangue”.

Alisson Dantas tem 46 cromossomos, ao invés dos 47 cromossomos de quem tem Síndrome de Down. O caso dele não foi de trissomia do cromossomo 21, mas de translocação do cromossomo 21, caracterizando Síndrome de Down. Com o passar do tempo, e munida de muita informação, Rosa começou a entender que Alisson teria um desenvolvimento que possibilitaria que ele tivesse uma vida independente. “Desde então ele vem sendo acompanhado pela APAE. Lá ele já passou por todos os serviços, o que ajudou consideravelmente no desenvolvimento dele”, afirma.

“A questão da inclusão é muito linda no papel e na teoria, mas ainda é uma realidade utópica. Avançamos, mas ainda é preciso avançar mais. A nossa sociedade ainda é excludente. Os professores não estão preparados para trabalhar com os alunos com Síndrome de Down, pois não há uma formação continuada, mas também não há uma receita pronta para se trabalhar com tanta diversidade. A dica para todos é se permitir em conhecer o outro e quebrar a barreira do desconhecido”, destaca Rosa Maria de Oliveira, mãe de Alisson.

Dia Internacional

A presença de um terceiro cromossomo 21 no DNA, que traz informações genéticas, caracteriza a Síndrome de Down, condição que pode gerar déficits no desenvolvimento intelectual, especificamente, nos atrasos no campo da aquisição da linguagem, da cognição e da comunicação, no desenvolvimento motor e na estatura, relacionados ao crescimento e ganho de peso. O dia 21 de março é comemorado o Dia Internacional da Síndrome de Down em alusão a trissomia do cromossomo 21.

A data tem como principal objetivo conscientizar a população sobre a questão da inclusão e discutir alternativas para aumentar a visibilidade das pessoas com Síndrome de Down. De acordo com o Censo 2010 do IBGE, cerca de 45 milhões de pessoas tenham alguma deficiência física ou mental no Brasil. Destas, estima-se que 300 mil tenham Síndrome de Down, que ocorre para uma prevalência de 1 para cada 600 nascimentos.

Caminhada da Inclusão deve reunir mais de mil pessoas neste domingo

A 2ª Caminhada da Inclusão, realizada neste domingo (22), em comemoração do Dia Internacional da Síndrome de Down, deve reunir mais de mil pessoas, segundo estimativa da organização do evento. Isto porque as mil camisetas da caminhada que foram colocadas à venda esgotou-se, no entanto, vale ressaltar que, quem nao tem a camisa pode participar da caminhada normalmente. A caminhada sairá do Parque das Dunas, às 15h. Em 2014, foram 480 camisetas vendidas e pouco mais de 800 pessoas participando. “Estamos muito felizes por conseguir uma grande adesão a nossa caminhada. O que importa é que todos possam ir, com suas famílias, participar dessa caminhada que é para dar visibilidade a nossa causa, e, sobretudo incluir nossos filhos, cada vez mais, na nossa sociedade. O importante é participar com ou sem camisa”, afirma Lorena Rocha, organizadora da caminhada.

“Nossa maior luta era contra o preconceito que existia dentro de casa, com a família e os próprios pais que, ao tentar proteger os filhos, terminavam excluindo eles da sociedade, mas essa realidade vem mudando e, aos poucos, estamos sensibilizando a todos que a diferença na verdade não faz diferença”, destaca Lorena Rocha.

Pesquisas comprovam que a inclusão de alunos com síndromes de Down em escolas regulares permite que essas crianças cheguem na vida adulta com habilidade de comunicação, interação social e desenvolvimento motor. “Acredito que a nossa maior conquista tem sido a inclusão de nossas crianças em escolas regulares, pois elas estão crescendo e convivendo com outras crianças, que serão menos preconceituosas, pois elas acham tudo normal. Dizem que as crianças é o futuro da humanidade e o que me conforta é saber que minha filha crescerá numa sociedade menos preconceituosa e mais tolerante”, afirma Lorena Rocha.

Reprodução: Jornal de Hoje