SOLUÇÕES PARA UMA VIDA COM MAIS QUALIDADE - Trabalho de terapia ocupacional do Walfredo desenvolve artigos especiais para quem tem problemas de locomoção
Geral
08.11.2010
DIÁRIO DE NATAL | URGENTE
Por: Francisco Francerle
Publicado no dia 07/11/10
Uma simples ponta de cigarro e alguns pingos de gasolina que escaparam do abastecimento de um barco foram o suficiente para provocar uma explosão que levou o pescador Olavo de Sales, 56, ao leito do Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Walfredo Gurgel, onde há 3 meses se recupera das queimaduras de 2º e 3º graus. Devido a gravidade das feridas no rosto, braços e pernas, seu Olavo teve comprometida sua mobilidade a ponto de não poder calçar uma sandália para andar por causa dos enormes curativos nos pés, prejudicando com isso a própria recuperação. Outro caso foi o do trabalhador autônomo Leonardo Monteiro, 21, que tentou suicídio ateando gasolina contra o próprio corpo. Com queimaduras no rosto, pescoço e tórax, a tendência do paciente seria manter o pescoço baixo como forma de aliviar as dores, o que comprometeria seriamente a elasticidade da pele do pescoço.
Os dois casos são bons exemplos para mostrar o trabalho realizado pela equipe de terapeutas ocupacionais do HWG. Em processo de cicatrização das feridas, o problema de mobilidade de seu Olavo foi tratado com criatividade pela equipe que confeccionou uma sandália regulável de velcro para ele poder andar. "Ele agora já pode andar pelos corredores do hospital, tomar banho e se socializar com os demais pacientes, ajudando em muito no seu tratamento. Uma simples atitude proporcionou uma melhor qualidade de vida para seu Olavo", explicam as terapeutas Jonara Ramos e Ana Lúcia Genobie.
No outro caso, a providência das terapeutas foi fazer um colar de gesso, deixando a cabeça na altura ideal para garantir a cicatrização e elasticidade da pele que asseguraram a postura e o movimento do pescoço. No Walfredo, os internos são reabilitados por meio de treino das atividades da vida diária, confecção de adaptações para auxiliar a autonomia e independência no dia a dia, além da confecção e utilização de órteses e da reabilitação cognitiva.
Recuperação fica mais rápida e facil
A equipe ainda orienta "cuidadores" de pacientes a produzirem facilitadores das atividades de vida diária como cabos de pentes, escovas de dente, barbeadores e cabos de colher, de acordo com a necessidade do interno e as peculiaridades do ferimento. "Há casos de pacientes que estão com tórax e braços paralisados devido os ferimentos e, ao invés de acomodá-los dando a alimentação, preferimos fazer uma extensão da colher, por exemplo, para eles mesmos se alimentarem e ainda estimularem o movimento que será importante para a recuperação", conta a terapeuta Ana Lúcia Genobie.
A extensão da colher é feita a partir do rolo de papel-filme com ligas de borracha e esponja para fixar a colher que varia de tamanho de acordo com a necessidade do paciente. Já a adaptação do copo para quem está sem poder utilizar os dedos das mãos é feita com avo (espécie de emborrachado).
Já o paciente com perna amputada tem dificuldade de equilíbrio, e tem problemas no sentar e levantar. Novamente, as terapeutas ocupacionais fabricam uma peça a partir de ataduras de crepom para exercitar movimentos e a força do paciente até que consiga se adaptar à situação. "Nesse aspecto o mais importante é que trabalhamos a autonomia do paciente e mostrar que ele pode", justifica Jonara Ramos. A equipe de terapeutas ocupacionais atua no Hospital Walfredo Gurgel há dois anos com três profissionais. Segundo dados estatísticos do hospital, de janeiro a setembro deste ano, realizou 3.505 atendimentos.
Método é Considerado Alternativo
Os métodos realizados são considerados alternativos, pois tentam restabelecer o máximo das potencialidades do paciente com material que normalmente já não tem mais utilidade. No hospital, os três terapeutas ocupacionais atuam principalmente no ambulatório e na enfermaria do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) e com pacientes da cirurgia vascular e da brinquedoteca (no terceiro andar). A Terapia Ocupacional também atua no Programa de Internação Domiciliar (PID).
Segundo Jonara Ramos e Ana Lúcia Genobie, o principal objetivo é fazer com que o paciente possa alcançar seu nível máximo de função e independência. "A terapia ocupacional é indicada para todos os pacientes que apresentam comprometimento nas atividades da vida diária (AVD), não importa se de causa física ou mental (AVD são atividades básicas que o indivíduo realiza no dia a dia, tais como alimentação, banho e vestuário)".
Os pacientes com AVC (Acidente Vascular Cerebral), por exemplo, normalmente apresentam um quadro de flexão de cotovelo, punhoe dedos. Após vários dias de internação, as articulações começam a sofrer com a falta de movimento, ficam rígidas, atrofiadas, ocorrendo impotência funcional pelo desuso dos músculos. Nestas situações, as sequelas pela falta de movimentação podem ser permanentes, como uma rigidez das mãos e punhos que ficam a ponto de não poder mais dobrá-lo. Os terapeutas ocupacionais tratam do problema com material alternativo, feito com o carretel de esparadrapo, peças de borracha e ainda com órtese de gesso para garantir o movimento e evitar que a mão se feche e se enrijeça.