UMA UTI DENTRO DO PEITO - O DESFIBRILADOR CARDÍACO IMPLANTÁVEL É UMA DAS MAIS AVANÇADAS TECNOLOGIAS PARA TRATAR O CORAÇÃO
Geral
24.01.2011
Publicado no dia 24/01/11
A arritmia cardíaca é um problema que se instala silenciosamente no coração. Chega sem dar sinais claros, causando o descompasso dos batimentos do órgão vital. Nos casos mais graves, o coração bate tão rápido que tremula e não consegue bombear o sangue para o restante do corpo, provocando a parada cardíaca fulminante – a causa mais frequente de morte súbita no mundo. A possibilidade de reconhecer e interromper a arritmia, realizada pelo Desfibrilador Cardíaco Implantável (CDI, pela sigla em inglês), no entanto, vem salvando a vida da maioria dos pacientes que têm problema cardíaco grave.
![]() Antônio Guida, 60 anos, teve a vida salva após sofrer um forte choque no peito, causado pelo aparelho Foto: Kléber Lima/CB/D.A Press |
A chamada taquiarritmia cardíaca maligna (taquicardia e/ou fibrilação ventricular), em que o coração bate tão rápido que não dá tempo de se encher de sangue e para, mata milhares de pessoas todos os anos no mundo inteiro. Somente nos Estados Unidos, cerca de meio milhão de pessoas têm morte súbita anualmente, a maioria devido ao problema cardíaco. "Se o problema não for corrigido imediatamente, dificilmente apessoa sobrevive", diz o cardiologista Cândido Gomes, do Instituto do Coração (Incor) em Taguatinga (DF).
É para evitar o pior que o CDI é implantado no paciente, funcionando como um gerenciador do ritmo cardíaco, reconhecendo a frequência e atuando a qualquer sinal de arritmia, da mais branda à mais grave. Posicionado no peito do paciente, o equipamento possui dois cabos, cada um com um eletrodo, ligados ao átrio e ao ventrículo do coração. "Ao menor sinal de frequência cardíaca errada, o dispositivo envia choques elétricos diretamente no coração, para que ele retome seu ritmo", descreve o arritmologista José Sobral, também do Incor.
O CDI atua de maneira permanente no corpo humano. Quando detecta a presença de uma arritmia é capaz de aplicar diferentes modalidades de tratamento mediante impulsos elétricos para suprimi-la. Dependendo da gravidade do problema, o desfibrilador pode aplicar de maneira automática tratamentos mais suaves (estimulação antitaquicardia) ou bem mais radicais (cardioversão mediante choque elétrico), que ocasionalmente podem ser percebidos pelo paciente. "O choque mais intenso atinge até 700 jaules. É como se fosse um murro no peito", exemplifica Cândido Gomes. "Na maioria dos casos, porém, a pessoa nem sente os choques", acrescenta o cardiologista
Contudo, qualquer desconforto é mínimo comparado ao benefício que o aparelho traz. Segundo os cardiologistas ouvidos pela reportagem, de 10 pacientes com problemas cardíacos graves, oito já foram salvos pelo aparelho. "Temos remédios contra tais problemas, mas nada é tão efetivo quanto o CDI", afirma Gomes. "É o que temos de última geração na medicina do coração", completa Sobral.
Contra paradas
O Cardioversor-Desfibrilador Implantável (CDI) é um dispositivo que detecta arritmias potencialmente letais e envia um choque elétrico ao coração, para que volte ao ritmo normal. Isso é chamado desfibrilação.
O que é
O CDI é constituído por três partes:
1- O gerador de pulso, com uma bateria, tem aproximadamente o tamanho de um biscoito grande
2- Circuitos elétricos que captam a atividade elétrica do coração (no interior do biscoito)
3- Eletrodos com sensores, implantados dentro do coração, conectados por fios ao dispositivo. O CDI pode ter 1, 2 ou 3 eletrodos
Funcionamento
Os sensores são capazes de detectar se o coração está batendo mais devagar ou mais rápido, e imediatamente dar um choque elétrico no interior do órgão, possibilitando a retomada de seu ritmo
Implantação
É feita por meio de cirurgia
1- A parede toráxica abaixo da clavícula é anestesiada
2- O cirurgião cardíaco faz uma incisão perto do ombro esquerdo, criando um espaço sob a pele e o músculo para colocar o gerador de CDI
3- Utilizando oraio X, são introduzidos os eletrodos no coração, através de uma veia. Em seguida, o cirurgião irá conectar os eletrodos ao gerador de pulso
4- O procedimento geralmente leva de duas a três horas
Indicação
Um desfibrilador cardíaco implantável é colocado em pacientes que estão em alto risco para morte súbita cardíaca
1- Insuficiência cardíaca grave (miocardiopatia) com arritmias ventriculares complexas
2- Episódios prévios de taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular
3- Infartos
4- Cardiopatias congênitas (presentes no nascimento)
5- Doença de Chagas
6- Problemas de alto risco
7- Cardiopatia hipertrófica
Complicações
Apesar de o choque não durar um tempo muito longo, é possível que provoque desconforto. Esse e outros problemas podem ser prevenidos por mudanças na programação do CDI. O médico que programa o dispositivo pode fazer os ajustes necessários
Fonte: cardiologistas José Sobral e Cândido Gomes
Sensação de levar um coice no peito
Antônio Guida, 60 anos, é um dos pacientes que teve sua vida salva pelo dispositivo elétrico. Há dois anos, o aposentado fazia compras com a esposa quando sua vista escureceu. Logo depois, sentiu um forte choque no peito que o fez soltar um grito em pleno supermercado. "Só me lembro que fechei os olhos, vi fogos e senti como se tivesse levado um coice no peito. Uma dor muito grande. Só não caí no chão porque me segurei no carrinho", lembra Guida.
O aposentado conta que ficou assustado com o ocorrido, mas ao mesmo tempo feliz. "É estranho falar isso, mas vivi a morte de perto e nenhuma dor é mais bem-vinda que a do choque fazendo meu coração retomar sua atividade", disse.
O aposentado experimentou outra vez a ação do CDI, porém de forma mais branda. "Estava tomando banho quando senti um choque no peito. Porém, nada muito incômodo, nem dolorido, era mais uma cosquinha", relembra. Há 15 anos, ele sofre de cardiomiopatia obstrutiva, em que a passagem do sangue fica comprometida dentro do coração. Há cinco utiliza o CDI implantado no peito.
O aposentado garante que, depois de implantar o dispositivo, sua vida mudou. Antes, só o ato de se vestir já lhe causava cansaço. Depois do aparelho, o problema sumiu. "Isso porque o dispositivo atua permanentemente no coração, fazendo com que ele bata corretamente", justifica o arritmologista José Sobral.
A indicação do CDI só pode ser feita depois de uma bateria de exames cardíacos. Sua aplicação é voltada para pessoas que sofrem de arritmias graves, como a taquicardia maligna, ou que tiveram um infarto. "O dispositivo representa uma segurança ao paciente, principalmente àqueles infartados e com problemas cardíacos congênitos", explica Gomes.
É o caso de João Pelles, 44 anos. O servidor sofre de hipertrofia ceptal congênita, descoberta quando tinha 25 anos. O problema faz com que seu coração dispare até fibrilar. Desde os 30 anos, Pelles utiliza o CDI. Embora nunca tenha sentido qualquer choque acionado pelo dispositivo, ele se sente seguro só em saber que o aparelho o assisteo tempo todo. "É como se vivesse com uma UTI móvel no peito", compara. "Encaro como uma bênção. Melhor do que viver numa situação incerta", conclui.
