Vida além do câncer
Geral
14.09.2011
Riad Younes
Atualmente mais de 60% dos pacientes com diagnóstico de câncer deverão viver mais de cinco anos, período considerado crítico para os pacientes e seus médicos respirarem fundo e declararem a doença vencida, sob controle crônico. Estes heróis sobreviventes aos terríveis tumores malignos merecem o respeito e o aplauso. Mas também precisam de apoio e de compreensão. Após passarem por esta corrida de obstáculos que representa o tratamento do câncer, muitos não conseguem se adaptar de volta ao convívio social. À vida normal. Alguns são sumariamente abandonados por seus parceiros, após o diagnóstico e o início dos tratamentos.
Não preciso descrever muito o aspecto devastador de se perder o ombro parceiro nesta situação grave. Outros são abandonados pelos colegas de trabalho, de profissão e pelos empregadores. Tratar câncer não é um passeio no parque. Cirurgias, quimioterapias, radioterapias podem afetar, e muito, os pacientes. Faltas frequentes às atividades profissionais. Fadiga crônica e sequelas das terapias podem limitar, de forma ou de outra, a capacidade de um doente reassumir e manter seu ritmo profissional pré-câncer. Alguns empregadores não querem apostar muito, e já não contam com o paciente precocemente no curso da doença. Os doentes ficam frágeis psicologicamente, e enfraquecidos moralmente. Sem apoio constante e firme de familiares e amigos, eles podem se marginalizar progressivamente, aumentando ainda mais o peso da doença vencida.
Os familiares devem lembrar, que os vencedores da guerra contra o câncer precisam reconquistar, e às vezes reinventar, sua vida social, esportiva, afetiva e profissional. Até a cobertura médica começa a ficar mais complexa, principalmente pelos convênios médicos.
Um estudo que acabou de ser publicado pela equipe do Dr WA Smith, cientista da Escola de Saúde Pública da Universidade de Memphis, Tennessee, EUA, na revista American Journal of Translational Research, alerta para as limitações dos sobreviventes de câncer. Mais de 93% deles não consegue aderir a programas de exercícios esportivos necessários para protegê-los das doenças crônicas, e mais de 27% experimentam algum grau de depressão. Quando os pacientes pensam que o mais difícil, tratar a doença, já tinha passado, eles às vezes percebem que existem cicatrizes muito mais dolorosas que as lesões cirúrgicas ou radioterápicas. E mais obstáculos pela frente. E por muitos anos. A compreensão dos familiares, e mais ainda da equipe médica, pode fazer uma grande diferença. Para não nadar…nadar… e morrer na praia.
Reprodução: Revista Istoé